Estive alguns dias fora do ar.

Virei estatística, agora tenho algumas histórias para contar. Mas, hoje, vou resumir o conto em algumas linhas de frustração, decepção e dores (estas associadas a: coceira, mal-estar, calafrios).

Doutor, tudo começou… com um calafrio. Pensei que a gripe que notei vários companheiros de metrô carregarem no nariz entupido, nas tosses insistentes ou nos espirros estridentes havia me pegado. Armei-me do arsenal de costume: própolis, mel, gengibre, água e ibuprofeno. Mas o calafrio escalou, virou febre que galgou rumo ao universo da dor. Era dor de toda espécie.

Da planta dos pés, ao mais alto fio de cabelo: Eu bem queria escrever flores, mas só pensava “Tudo são dores.”

Segurei a onda, mas uma pessoa só consegue segurar o que consegue segurar. E eis que veio o Tsunâmi.

AedesNo hospital, tirei sangue e tomei soro com dipirona. Fui para casa melhor, com uma receita, um atestado e um exame nas mãos, além de um diagnóstico bastante preciso — se não considerarmos o grau de ironia dessa afirmativa — “todos os sintomas levam a crer: você está com dengue; o exame não detecta o vírus porque você precisaria estar apresentando sintomas há, pelo menos, seis dias, mas esses aqui, ó, são os exames que nos dizem se você tem ou não uma das três viroses; aqui está tudo normal, deu negativo, mas aí analisamos os sintomas, como disse; se eles persistirem, volte aqui na quarta-feira e faça outro exame, enquanto isso…”

O tratamento para dengue é simples: dipirona, remédio para coceira, remédio para enjoo e muito, muito, muito líquido.

Mas os sintomas persistiram, mudaram, incrementaram-se.

Com tonteira, voltei ao hospital para outro exame, outro diagnóstico “preciso” e mais um atestado.

E isso para descobrir que:
A piada somos nós, cidadãos deste país.

*miniflashback*

Num belo domingo de sol, debatemos aqui em casa a questão “Zika no Brasil”. Expressei minha teoria de que com tantos anos de fumacê, e levando em consideração os estudos de Darwin, o Aedes aegypti deve ter sofrido mutação. Ademais, se quiséssemos combater as doenças que ele transmite, deveríamos trabalhar o básico: educação e saneamento.

E não é que encontrei um artigo para fundamentar minha teoria?

Publicado pela ABRASCO (Associação Brasileira de Saúde Coletiva), o artigo Nota técnica sobre microcefalia e doenças vetoriais relacionadas ao Aedes aegypti: os perigos das abordagens com larvicidas e nebulizações químicas – fumacê é de indispensável leitura para refletirmos: “O que fez os casos de dengue se tornar mais graves, se antes era considerada doença benigna desde 1779 até 1950, sem provocar sequela e sem alterações hematológicas, conforme dados da OMS?”; “Como está o sistema imunológico da população diante do modelo químico de controle vetorial e adotado pelo MS em curso no País há cerca de 30 anos?”

Nessa batalha contra o inseto, o ser humano é atingido, morre lentamente, e uma das razões é que “todos os inseticidas que se utilizam em saúde pública – por razões de mercado – são produtos originalmente desenvolvidos para a agricultura, não havendo nenhum que tenha sido desenvolvido exclusivamente para uso em saúde”.

*

Hoje, sinto na pele — e estou sendo literal — os efeitos de um vírus que não conseguimos combater, principalmente, porque o individualismo perverso dos políticos (lato sensu) não permite que eles sejam afetados pelo Outro. Não adianta esfumaçar o país, envenenar as caixas d’água e nos pedir para tomar dipirona e voltar para o final da fila. Deixe-me dizer uma coisa: Nossos olhos estão doendo, nossa pele coça e muitos de nós morremos e ainda vamos morrer, enquanto vocês, que se dizem “no poder” — poder de quê? — brincam de mandar, de (des)governar, de administrar, nesse país onde a vida parece ter perdido sentido, já não importa.

Que diferença vai fazer saber se eu tenho ou não a doença? Então, na segunda capital do país, no hospital da maior rede de assistência médica do Brasil, os médicos tentam interpretar um hemograma para diagnosticar dengue, chikungunya e zika e mentem sobre o método de investigação (eles não fazem sorologia).

Que diferença vai fazer se morremos porque não sabemos ou se vamos morrer sem saber? Então um médico, do mesmo hospital onde não fazem sorologia para diagnosticar a dengue, diz que leu, no jornal, que qualquer mosquito agora pode transmitir zika e me tranquiliza dizendo que essa é a praga do momento (e eu preciso ficar tranquila nas mãos de um médico que encontra fundamentos científicos no jornal).

Que diferença a gente faz para vocês? Então, não é necessário pesquisar, não é necessário saber, basta tomar — e o médico fez a conta nos dedos depois de me perguntar quanto peso — três litros de água a começar “agora mesmo, não tem problema ser de noite”.

É… Mas eu só queria dizer:

Não existe um “eu”, independente, e então alguma situação simplesmente faz perder o Outro e tudo fica bem, depois de um breve luto. Não. O “eu” aqui faz parte do “você” aí. E vice-versa.

À medida que perdemos o Outro, vamos nos perdendo.

À medida que perdemos cidadãos, vamos perdendo a nação. (a noção, já está perdida há muito tempo) E no Brasil, estamos mesmo nos perdendo em dor.

(a fotografia é de Marcos Teixeira de Freitas e foi retirada do site http://www.sciencemag.org/)
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Um comentário sobre “Tudo são dores (um relato dengoso)

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