Um texto, seja ele verbal ou não-verbal, é escrito a partir de uma linguagem que, por sua vez, é habilidade natural e intimamente IMG_1760ligada à experiência do ser humano. Não existe linguagem sem vida. A linguagem não é, por si só, ela existe como reflexo do enunciador. Estar em contato com certa linguagem é como olhar para a imagem, em um tempo e um espaço, de quem a utiliza, na medida em que linguagem, pensamento e construção da realidade estão intimamente ligados. A linguagem é principal exemplo da capacidade do ser humano de utilizar símbolos.

Aliada a capacidade nata de se expressar, está a língua, composta por elementos e estrutura que constituem meio de representar o que é transmitido como linguagem. O aprendizado da língua acontece a partir do convívio com outras pessoas que tornar-se-ão falantes-modelos. Assim, a estrutura formal ou, mais especificamente, a gramática será apreendida conforme o modelo seguido. É, portanto, nas escolas e no convívio com adultos que as crianças aprendem a língua — aprendem a falar, escrever e ler — como forma de expressão, em níveis de degradação ou excelência coincidentes com o modelo.

Logo, podemos entender que o uso da língua pode ser variado e provocar diversidade de linguagens; ou seja, a língua portuguesa, por exemplo, pode ser utilizada por diferentes enunciadores, com diferentes propósitos e, a partir de distintos pensamentos, criar uma variedade de linguagens a refletir os inúmeros enunciadores. Por consequência, se um indivíduo se apropria da linguagem do outro, incorpora aquela identidade em um amalgama composto por aquilo que ele/ela é, mais o outro (o que foi incorporado). Já não haverá ele/ela, nem o outro, haverá um novo ser, uma nova linguagem.

Apropriar-se de uma linguagem pode ter a função de desconstruir um discurso — por exemplo, movimentos feministas que apropriam palavras de xingamento como palavras de ordem — ou de acrescentar ao discurso do outro a voz de quem o apropria e, portanto, sua identidade — por exemplo, a adaptação de um texto literário para outro meio narrativo. Independente da função da apropriação, há que se ter cuidado: esse processo cria algo novo. Aliás, se não criasse, para que apropriar-se de; para que adaptar?

No cinema, é comum obras que surgem a partir da adaptação de outra, em geral um romance, àquele meio. Ou seja, um roteirista se apropria da linguagem de um romancista e escreve de forma a transpor para o meio audiovisual aquela história. Cria, assim, um amalgama composto pelas duas linguagens, portanto, uma terceira. Excelentes adaptações foram feitas, tanto para o cinema quanto para o teatro. Mas são adaptações, portanto, o texto é vendido como “A história tal” por Fulano Roteirista, adaptação do “Livro tal”, por Sicrano Autor.

Observemos o caso da montagem de “Hamlet” pela companhia de teatro Berliner Ensemble. O que se vê na apresentação desse grupo de competência incontestável não é a peça de teatro escrita por William Shakespeare, mas sim, um texto escrito a partir da obra clássica. Shakespeare escreveu uma tragédia, o Berliner Ensemble apropriou-se dela para montar algo que vai da tragédia à comédia — com toque circense, ouso dizer. O resultado da adaptação é uma brincadeira com belas citações que transpõem a história do príncipe dinamarquês com sede de vingança para um tempo indeterminado, e mistura elementos de diferentes linguagens. A utilização do palco, do corpo, e de recursos materiais faz parte da linguagem criada pelo grupo. Em outras palavras, quando assistimos a “Hamlet, Berliner Ensemble”, não assistimos a “Hamlet, de William Shakespeare”.

Agora vamos girar o foco e mirar a coleção de obras “facilitadas”, recentemente proposta por uma escritora brasileira. Trata-se de projeto que, segundo a escritora, pretende levar literatura a quem não lê. Para isso, ela propõe rescrever obras como “O alienista”, por Machado de Assis; “A pata da gazela”, por José de Alencar e “O cortiço”, por Aluísio Azevedo, de forma a facilitar a leitura por meio de substituição da língua portuguesa utilizada no século XIX por aquela da atualidade. Em outras palavras, a proponente do projeto pretende modernizar, ou atualizar, o texto; no entanto, sua atitude trata-se de apropriação de textos clássicos para produção de outros. Essa equipe de escritores criará um amalgama composto pela linguagem daqueles autores, mais a linguagem da equipe. Dessa forma, o texto escrito não poderia ser identificado como “O alienista, Machado de Assis”. A capa do livro deveria trazer algo como “O alienista, Equipe X”, ou ainda, utilizar a palavra “adaptação”.

Retifico meu desgosto por esse projeto, em primeiro lugar, porque não acredito que trocar ponto e vírgula por ponto final seja maneira de ensinar a língua portuguesa a nossos alunos, ou de incentivar a leitura. Por acaso vamos abolir o ponto e vírgula? Não! Ele existe para ser usado e devemos aprender a utilizá-lo; sua função não é a mesma da que tem o ponto final. A melhor maneira de aprender a escrever é ler.

Em segundo lugar, porque devemos primar pela diversidade. Sempre. O termo diversidade inclui diversidade de linguagem. Eu desejo que minha filha e qualquer outra pessoa com quem convivo ou não sejam capazes de se expressar nos mais diversos contextos, sejam capazes de compreender os mais diversos discursos. Se nós aprendemos que “ksa” significa “casa” e “pse” significa “pois é”, por que os jovens de hoje não podem aprender a ler frases escritas em ordem indireta? Por que não podem aprender palavras novas, ou significados novos para palavras que já conhecem? Afinal, Machado de Assis, José de Alencar e Aluísio Azevedo são “falantes-modelos” que trazem em seu discurso o reflexo do que eram como indivíduo e do que era a sociedade naquela época. Quem os lê hoje, aprende sobre outro tempo, tempo este responsável, até certo ponto, pelo que somos agora.

Meu desgosto por “facilitar” a leitura e ainda assim chamá-la de Machado de Assis envolve os níveis de degradação ou excelência de nossa educação, a desconstrução de um discurso clássico, a negação da diversidade. Meu desgosto está associado ao medo de que nos tornemos seres humanos ordinários, no sentido século XIV da palavra.

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