O banheiro parece ser o derradeiro, o irrevogável espaço para a opressão de gênero.

Eu estava em um banheiro público lavando as mãos quando a porta se abriu. Instintivamente, olhei na direção do barulho. Uma senhora com expressão assustada parou, encarou-me — talvez o verbo correto aqui seja escrutinar — e com certa agressividade perguntou se aquele, afinal, não era o banheiro de mulher. Respondi que sim.

Ela não entrou.

Naquela ocasião, meus cabelos eram bem curtos. Raspava-os com máquina um, dois ou três conforme meu estado de espírito no dia do corte e já não usava saia, vestido ou maquiagem havia muito tempo. O que tem nada a ver.

Mas o que tem a ver é: Aquela senhora, aparentemente, tinha dificuldade para entender que o conceito de mulher/homem vai além de nossa aparência física e que os parâmetros criados pela sociedade não são suficientes para abordar toda a diversidade que existe. Os padrões não são definitivos.

O que tem acontecido é uma terrível inversão de valores, “a estética corporal predomina sobre a ética espiritual” (Frei Betto) e assim muitas pessoas acabam passando por constrangimentos desnecessários.

A sociedade é opressora.

“A forma como as pessoas abordam a beleza física não é determinada naturalmente, ela é aprendida social e culturalmente e, portanto, a beleza está nos olhos de quem vê” (Zones, 1997). Ou seja, uma pessoa não nasce bonita, o contexto cultural a torna bonita em vez de feia ou, às vezes, o contrário. Imagine um lugar específico no mundo, numa determinada cultura. Agora concentre-se em um aspecto do corpo considerado feminino, por exemplo, o corte de cabelo. Conforme o lugar e a época, o padrão é diferente. Vejo mulheres de cabelos curtos, de tranças, dreads, cabelos raspados, ou turbante. Vejo mulheres de cabelos longos, lisos, crespos, alisados, tingidos. Mas também ouço mulheres dizerem que os fios longos são bonitos somente até certa idade, mulheres mais velhas precisam ter cabelos curtos. Cabelos grisalhos ainda são inapropriados para mulheres, principalmente as jovens, por exemplo, em seus quarenta. Cabelos longos e grisalhos? Nem pensar. Cabelos crespos? Devem ser alisados.

Como Zones argumenta, o critério existe e é exigente. A aparência física está — e sempre esteve — no foco; sobretudo, a da mulher, que é constantemente pressionada a seguir o modelo vigente.

Algumas pesquisas já concluíram que as pessoas “fisicamente atraentes” têm mais chances na vida que as nem tão atraentes assim. Até mesmo os bebês bonitos são mais bem sucedido, assim como estudantes com boa aparência. A questão parece estar no fato de que pessoas que pensam ser atraentes — e que, de repente, são — tornam-se mais “socialmente competentes”. As pesquisas também mostram que o principal alvo dessa cobrança é a mulher. (Zones, 1997)

Afinal, quem é e quem não é fisicamente atraente?

Depende.

Os conceitos de beleza mudam, variam conforme o tempo e o espaço. Mas há uma coisa que não muda: A necessidade de homogeneização. Em outras palavras, quando houver um padrão, tudo deve segui-lo. Se uma determinada etnia ou uma orientação sexual for o padrão, qualquer indivíduo que busque reconhecimento deve estar de acordo com os critérios estabelecidos. Aí encontramos um problema: Se alguém não segue os parâmetros — raça, etnia, gênero, classe, idade, necessidades especiais, e tantos outros —, deve ser corrigido.

Os padrões de gênero me incomodam.

Um artigo que marcou minha formação nessa área dos debates de gênero, dentre tantos, foi “What It Means to Be Gendered Me”, de Betsy Lucal — numa tradução livre: O que significa ser eu gendrizada (ou seja, eu dentro de um padrão de gênero). A partir dessa leitura percebi o quanto indivíduos são oprimidos dentro das categorias de gênero. Como Lucal diz, vivemos uma regra de dois e apenas dois. O que a professora de Sociologia e Antropologia da Indiana University quis dizer é: A sociedade só reconhece dois gêneros, o feminino e o masculino, e cada um tem suas características muito bem definidas. Por isso afirmamos que fazemos o gênero. O gênero é performance. E é também por isso que, no banheiro público, ou sou homem, ou sou mulher.

Lucal descreve suas experiências como uma mulher que não carrega traços femininos tais como as pessoas, em geral, esperam de um indivíduo que nasce com vagina, útero e ovários. Porque ela se veste com calças largas, não pinta as unhas, tem cabelos curtos e outras características que normalmente não são atribuídas a um corpo feminino, frequentemente ouve alguém dizer que ela está no banheiro errado. Frequentemente também é chamada de senhor, ou considerada uma pessoa suspeita, ou alguém cometendo uma fraude usando o cartão de crédito de uma mulher chamada Betsy. Como ela diz, não importa a maneira como ela se vê, o gênero que aparenta acaba sendo o mais relevante para sua identidade social e sua interação com o outro. (Lucal, 1999).

Isso é extremamente injusto. Isso é mais comum que você possa imaginar. Isso gera incômodo.

Não existe característica certa para o gênero certo. Existe o que cada um é.

Se a performance do gênero, ou nossa atuação dentro de um padrão de gênero, é correta ou não, pouco importa. O relevante é o conforto de cada um com seu corpo. Isso é o que torna nossa beleza perfeita. Ademais, não existem apenas dois gêneros — mas isso é assunto para ser bem debatido em outro texto.

Talvez Audrey Hepburn tenha sido uma mulher perfeita. Mas Lucal, eu, e tantas outras mulheres barradas na porta do banheiro feminino e cobradas por não serem femininas o suficiente somos perfeitas do nosso jeito, porque nós fazemos nosso gênero. Nossa performance pode ser diferente do padrão, mas é nossa. E melhor que nos corrigirmos para atender às expectativas, é olharmos para nós mesmas com orgulho por sermos quem somos e por termos a aparência que temos. Nós somos o primeiro olhar que nos vê. E se eu não estou de acordo com o padrão, bem, só me resta dizer: Sou queer. E daí?

Referência:

Lucal, Betsy. What It Means to Be Gendered Me: Life on the boundaries of a Dichotomous Gender System. Gender & Society, 13 (1999): 781-97.

Zones, Jane Sprague. Beauty Myths and Realities and Their Impact on Women’s Health. Women’s Health: Complexities and Differences. Ed. Cheryl B. Ruzek, et alli. Columbus: Ohio State UP, 1997.

*A palavra queer em inglês e na sua origem significa estranho, peculiar. No século XIX, passou a ser usada com sentido pejorativo para se referir a pessoas que se relacionavam intimamente com outras do mesmo sexo. Nos anos 80, os movimentos LGBT apoderaram-se do termo para descrever o sujeito que não se enquadra nas normas dicotômicas de gênero.

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6 comentários sobre “Sou queer*

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