Sobre beijos, amassos e outras declarações de amor

Não vou dizer que aconteceu com uma amiga.
Fui eu mesma.
Beijei, beijei, beijei.
Amassei
e me declarei.
Nunca precisei do apoio de ninguém para fazer isso.

(Brigitte — não a Bardot —, quando perguntada sobre os beijos que trocou)

Seria engraçado se não fosse trágico: As pessoas se preocupam com a vida sexual…

Dos outros.

Trágico porque enquanto pensam no outro e no que o outro faz na cama, deixam de pensar em si. Resultado? Uma sociedade extremamente frustrada, reprimida, recalcada. Engana-se quem pensa que “awnt! que lindo o casalzinho gay!” é sinal de apoio.

Não é.

Da mesma forma que dizer que um negro é “moreninho”, uma criança com síndrome de down é “meiguinha” e uma casa que você visitou no morro é “limpinha”, não indica que você encara essas pessoas com naturalidade. Ora, quando foi que você visitou um apartamento de luxo e comentou “nossa, limpinho o ap de fulano de tal”?

Quando o que importa é a essência, pessoas ainda insistem em ver o superficial.

E eu insisto: Beijo é beijo; minha pele não está sujeita a sua aprovação; meu limite físico, cognitivo, ou psicológico tem nada a ver com sua limitação de caráter. Somos sujeitos equivalentes — o que há em mim, equivale ao que há em você e vice-versa.

Nesta sociedade-século-XXI, em que pessoas carregam telefones para onde vão, carros conversam com o motorista e virtualmente todos habitam o mesmo espaço, cabeças continuam tão fechadas “como dantes, no quartel de Abrantes”. Difícil entender.

Lastimável é frequentar o mundo virtual e notar que companheiros de rede acreditam e proclamam: Lugar de gente diferente é dentro de casa, de preferência, no quarto de portas fechadas, melhor ainda se ficar dentro do armário.

Isso não pode mais.

Compreender que em séculos passados termos foram criados para padronizar o sujeito social é tarefa fácil — as pessoas eram colocadas em caixas rotuladas — já que, sem acesso à informação, quando alguém se destacava do conteúdo da caixa, o medo do diferente provocava reação segregativa, discriminatória e até mesmo eliminatória.

Hoje, vivemos a um clique de qualquer conhecimento que queiramos adquirir. O desconhecido pode ser facilmente integrado. Já não precisamos de caixas, mas sim de um olhar livre de julgamentos.

Olhar o outro através de lentes translúcidas, sem cor, sem efeito e sem reflexo é o nosso grande desafio.

Que mal pode um sujeito fazer a outro por simplesmente ter diferente orientação sexual?

Que mal pode haver em um beijo, um abraço, em mãos dadas com carinho?

O mal não está no amor, na paixão ou no tesão. Eles são naturais.

Quando foi que você escolheu por quem se apaixonar?

Então, se você, heterossexual, pode segurar a mão de quem lhe acompanha, por que não deixar que outros façam o mesmo?

Se você, homem, pode se vestir ou mostrar seu corpo da maneira e no lugar que bem entender e isso não é provocar, ou sensualizar, por que não respeita o espaço da mulher?

Se você, dentro da sua perfeição física pode trabalhar onde quiser, por que não permite que os “nem tão perfeitos assim” possam escolher o emprego que quiserem?

Não dê esmolas. Dê respeito.

Permita ao outro a dignidade que você deseja para si.

Não tenha dó, tenha compaixão.

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