“A página em branco é a manhã sem nuvens:
é a esperança…” — Eça de Queirós

Enquanto abro minha caderneta para preencher as últimas páginas em branco com estas que, parece-me, serão as últimas palavras do ano, pergunto-me se saberei expressar este que não é o último sentimento nem do ano, nem de minha vida.

Tentarei não soar piegas, também não desperdiçarei tinta — ou pixels — com lugares comuns.

Serei realista:
Muita coisa ruim aconteceu neste ano — e em vários outros que já passaram.
Muita coisa ruim acontecerá no ano que vem.
Muitas palavras mal escritas estarão estampadas das próximas páginas em branco — essas que me disseram ser esperança.
A esperança é maculada pelo verbo.

É… Sinto muito: o ano que vem pode ser ruim.

Assim como minha vida nunca foi um mar de rosas e jamais poderei dizer “tudo são flores”, a sua também não foi e jamais será assim. E se, por acaso, pensar que é, lembre-se: rosas têm espinhos.

keep calm shit happens

 Vejamos:
Antes de completar dois anos, quase morri. Aos seis, quebrei a perna, aos treze o dedo da mão direita e aos trinta e um o dedão do pé direito. Vi pessoas morrerem. Vi pessoas doentes. Quatro vezes fui assaltada, uma delas com cacos de vidro a ameaçar minha jugular. Perdi ônibus quando estava atrasada. Peguei ônibus lotado. O ônibus estragou no caminho. Encontrei bicho vivo na comida, encontrei bicho morto e também encontrei cabelo e pedaço de unha — todos na comida, nenhum deles, meus.
Eu me divorciei.
Namorei.
Terminei.
Terminaram comigo.
Sofri.
Sofri muito.
Sofri pouco.
Senti-me sozinha. Pensei estar desamparada. Tive medo.
Tive projetos que não foram selecionados em leis de incentivo. Não passei em processos de seleção. Não consegui publicar meu livro, não consegui publicar uma tradução. Não passei em concursos.
Fui demitida. Não fui aceita. Algumas pessoas não gostaram de meu trabalho — eram gregos, eu só conseguia agradar a troianos.
Políticos me decepcionaram.
Sofri preconceitos.
Já me chamaram de quatro-olhos, baixinha, sapatão.
Quis morrer.
Eu me embebedei.
Saí por aí sem rumo.

Até que encontrei um caminho.
No caminho, tive dúvidas.
Tive várias dúvidas.
Mas segui.

 Estou curada.
— Das alergias — 

Minha perna, meu dedo e meu dedão já não doem mais — agora são os ombros, a cabeça, a lombar. Das pessoas que morreram, guardo boas lembranças. Vi muitos se curarem. Vi pessoas nascerem. Não tive a jugular cortada por cacos de vida, mas fiz amizades e ajudo a colher sorriso, atenção e cuidado.
Políticos me surpreenderam.
Vários textos que escrevi foram aceitos.
Publicaram alguns livros meus — ainda tenho muitos a publicar.
Produziram um filme que escrevi — ainda há muitos a produzir.
Não perco o ônibus, porque tenho carro — e dinheiro para a gasolina.
Meu ex-marido encontrou o amor da vida dele e eu o meu.
Nossa filha é feliz.
Já não namoro.
Não sofro tanto, nem me sinto desamparada.
Superei meus medos e não bebo tanto assim.
Sei onde quero chegar, mas, por vezes, sinto-me perdida, simplesmente porque vivo. Ou porque vivo simplesmente.

E viver, como disse o grande mestre Guimarães, é muito perigoso. Não é um mar, mas um sertão de Rosa.

Agora, enquanto vejo meu passado e preencho as últimas páginas em branco de minha caderneta, desejo ainda perder muitos ônibus, brigar, encontrar minhocas na comida, embebedar-me e me sentir desnorteada. Porque somente assim realmente saberei onde e como me encontrar.

 Então desejo a você — e a mim também — um ano novo de muitos desvios, desencontros e confusões.

Desejo páginas em branco para que rabisquemos, rasuremos e escrevamos tantas quantas forem as histórias que nos ocorrerem — com medo, mas também, com muita coragem para sempre tentar, mesmo quando o caminho nos parecer impossível, mesmo quando nós estivermos perdidos.

Afinal de contas, o perigo da busca é parte integrante desse álbum intitulado “Vida”.

 Paz, saúde e gratidão,

Ana Luiza Libânio
(dezembro, 2013)

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