Está mais que evidente: Viver é muito perigoso. Mesmo. E Guimarães Rosa não foi um gênio quando escreveu isso. Qualquer um teria escrito essas palavras, mais cedo ou mais tarde.

Viver é, sempre foi e sempre será perigoso.

E a culpa não é do PT, não é da Dilma, nem mesmo da bancada evangélica ou do PSDB… A culpa também não é das estrelas. Ela é nossa.

Mas ao contrário do que você possa pensar, este texto é otimista.

No período de aproximadamente um mês ouvi dois gritos de “pega ladrão”; em caminhos do dia a dia — sei lá! talvez uma ida ao banco, à padaria ou a uma reunião de trabalho — vi duas pessoas sendo presas, em dias diferentes, e ambas as situações com direito a gritos e armas; o calor tornou-se insuportável, o trânsito só piora, e minha conta bancária insiste na cor mais quente — que não é o azul, no caso.

Cansei de ouvir pessoas reclamarem do horário de verão, da crise, da falta de chuva e do excesso dela. Já perdi a conta de quantas vezes cumprimento alguém e não recebo nem meio sorriso em retorno. Cansei de ouvir buzina, e gritos de filho da puta, viado e o caralho a quatro.

Mas este texto é otimista.

Imagem cedida por Edmundo Bruno
Imagem cedida por Edmundo Bruno

Porque no meio desse caos e de todo o perigo que viver nos proporciona, encontrei um jogo da amarelinha. E foi por acaso, numa brecha que o universo me proporcionou nesse frenético roteiro. O jogo estava lá em Glenelg Beach, em Adelaide, Austrália, e veio pular na minha mesa, porque se Maomé não vai à montanha…

Então fiz como os mestres ensinam: Aquietei-me. Deixei-me desensurdecer pelo som do que nascia; deixei a novidade roçar-me a alma; permiti que as cores do arco-íris desabotoassem meus olhos; degustei o acético, o sacaroso, o amargo; e sorvi até a quinta-essência. O sopro.

A realidade, até então palpável, desvaneceu.

Na amarelinha, os trâmites não são suaves vicissitudes lineares de uma monótona relação causa-efeito.

Na amarelinha, angústia e ansiedade jogam lado a lado em saltos polífonos — ora em baque, ora em um quase inaudito bum — que traçam quadrados criadores de falsas arestas com aparentes ângulos retos: O verdadeiro — verdadeiro? — viés da vida.

Se o que ela me pede é dormir melhor, levantar a energia, viver mais, ser mais forte, aliviar o estresse, limpar a mente, sentir-me bem e me divertir, é isso o que vou fazer. Saltarei sobre meu pé mais forte, dobrarei meu corpo quando for necessário, girarei em torno de mim mesma e estenderei a mão quando achar que vou cair, seja para me apoiar no chão e levantar, seja para aceitar o amparo da outra que vem em minha direção.

Viver, afinal, é perigoso. Mas a culpa… Bem… Não há culpa.

Viver é ser agora, sem amarelar no salto

ponto-final  reticências

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