Aconteceu há décadas, quando ainda faltavam décadas para eu nascer, mesmo assim, eu não me esqueci do que fizeram contra a humanidade.

E você? Sabe o que aconteceu?

Lembra-se disto?

Sequestrada, ela foi levada para longe, dentro de uma caminhonete… Deixaram-na em uma espécie de quarto onde sentiu-se aterrorizada e começou a gritar. Nesse momento, seus algozes a colocaram dentro de um tanque cheio de água. Seus seios doíam muito — ela ainda amamentava… Amarraram suas mãos e pés com fios que foram ligados à corrente elétrica. Começou a ter convulsões. Pediu para ir ao banheiro. Levaram-na nua por um corredor cheio de soldados… Fizeram-na ouvir uma gravação e disseram que era seu filho. Chorando. Desfilaram com ela pelo corredor. Ela foi estuprada várias vezes.

O século XX foi testemunha de uma sucessão de regimes políticos que usavam de violência como ferramenta política, na América Latina. Foi muito alto o número de mortes, exílios e desaparecimentos durante os regimes ditatoriais em vários países e essa forma extremista sempre foi justificada pela necessidade de controlar ideais subversivos que se opunham a políticas dominantes. Consequentemente, violência política, na América Latina, foi uma maneira opressiva de controlar a trajetória política de países e não uma revolução, ou força libertadora.

A origem da violência política do século XX pode ser traçada a partir da industrialização e consequente urbanização que levaram a conflitos entre classes sociais. Enquanto países se industrializavam e se tornavam mais urbanizados, a migração de áreas rurais para as cidades cresceu e a classe trabalhadora urbana emergiu e se tornou o cerne de movimentos populares contra o sistema. O ideal era que o estado tivesse controle da sociedade e criasse uma nação em que a resistência fosse controlada. No entanto, as expectativas do estado em relação à sociedade e as demandas de grupos populares cada vez mais se chocavam, o que ocorria desde o século XIX. Ademais, tecnologia, mercado e capitalismo ajudaram a empoderar os novos grupos socioeconômicos e a gerar movimentos políticos, uma vez que os marginalizados resistiam e criavam nova posição como sujeito, questionando então a definição de “quem e o que deve ser oprimido”.

A promoção do mercado global por economias estrangeiras, no final do século XIX e princípio do XX, incrementou os conflitos sociais e políticos surgidos com a industrialização e a urbanização na América Latina. A propagação do liberalismo econômico abriu os países latino-americanos para investimento estrangeiro, o que expandiu nesses países a exportação de matéria-prima e a importação de produtos industrializados. Os empresários norte-americanos e os europeus se estabeleceram na América Latina a fim de construir estradas, desenvolver plantações e promover atividades comerciais. Meios de transporte modernos, mercado livre e o desenvolvimento da indústria agroexportadora representou domínio norte-americano em países como Guatemala, México, Cuba, Argentina e Brasil. A classe alta (elite proprietária de terras, ou a oligarquia) justificava sua superioridade e autoridade a partir do Positivismo de August Comte e do Darwinismo Social. A classe trabalhadora e a classe média, então emergentes, insatisfeitas com a pobreza e com as más condições de trabalho, além da perda de capital para negócios estrangeiros, protestaram contra o ideal de “Ordem e Progresso” apoiado pela elite. Nesse cenário, os Estados Unidos atuaram com uma “missão transformadora” que promovia o capitalismo a qualquer custo. Dessa forma, os EUA podem ser vistos como país transformador da América Latina, uma vez que apoiaram regimes que lutaram contra movimentos revolucionários que se opuseram à cultura do consumismo, ao investimento estrangeiro e à crescente polarização social.

Enquanto o capitalismo e o desenvolvimento de uma sociedade de consumo tiveram sucesso, movimentos sociopolíticos emergiram na América Latina contra a missão transformadora dos EUA e a favor de justiça social e econômica. Durante as quatro últimas décadas do século XX, na América Latina, alguns governos tentaram satisfazer as expectativas de movimentos populistas enquanto golpes militares, em outros países, tentaram controlar o socialismo e criar estabilidade econômica a partir do capitalismo. Devido a sua trajetória política e econômica, a América Latina tornou-se, no século passado, importante arena para a luta entre ideais sociais, políticos e econômicos adversos, criando, assim, perfeitas condições para as chamadas “guerras sujas”.

Os Direitos Humanos fazem parte da agenda de várias nações, desde que houve sua Declaração Universal, ratificada em 1948, composta por trinta artigos que descrevem os direitos garantidos a qualquer pessoa. Nesses trinta artigos está, por exemplo, o direito à vida, o direito à segurança pessoal, direito a julgamento, direito de não sofrer em condições desumanas, direito de não ser submetido à tortura. No entanto, conforme documentos coletados ao longo dos anos, o Brasil e a Argentina foram campeões de violação de cada um dos direitos humanos durante o período de repressão, também conhecido como ditadura, ou guerra suja.

O exército seguia seu plano de curar o país e libertá-lo dos agentes políticos subversivos que tentavam implementar ideologias socialistas, ou Marxistas. Seguiam uma rotina de sequestro, assassinato e tortura. Tentavam se justificar: diziam que o terror era calculado e de excesso inevitável. O terror, para eles, era natural da guerra que lutavam.

Durante as ditaduras na América Latina, inocentes morreram nas mãos de assassinos oficiais. Para os militares, no entanto, poucos eram os inocentes; quem não era subversivo provavelmente estava ligado a algum agente político subversivo. Estudantes, assistentes sociais, jornalistas, professores e todos os que tinham ideais modernos, seculares, racionais e de justiça social passaram a ser alvo de punição com violência.

O corpo individual era punido.

Sequestro, desaparecimento e tortura.

Assassinato, estupro e extorsão.

À noite, ou no início do dia, em geral mais no final da semana.

Tudo era bem planejado para que os familiares demorassem a notar a falta do sequestrado. Mas eles só demoravam a perceber o sumiço, quando não tinham a casa invadida por soldados e seu pesado armamento.

Frequente forma de tortura das mulheres era o estupro, que também servia de tortura para os maridos.

Mulheres grávidas eram sequestradas e torturadas.

Crianças eram separadas dos pais, tiradas de casa, ou da mãe, logo que nasciam; neste caso, eram dadas para adoção.

As ditaduras na América Latina foram atos de violência financiados pelo estado. Os direitos humanos nesses anos de terror foram completamente ignorados e a lei valia nada. O corpo do indivíduo era frequentemente violado por pessoas que promoviam a violência disfarçada de proteção do corpo social. Isto é, o estado favoreceu o corpo social em detrimento do corpo individual.

As experiências vividas durante os anos de terror, de chumbo, de guerra suja, enfim, de estupidez humana, geraram lembranças impossíveis de apagar.

Era cedo quando ela foi levada a outra cela e amarrada à cama. Tiraram-lhe as roupas e a interrogaram enquanto aplicavam choque elétrico por todo seu corpo. Perguntavam-lhe sobre suas colegas. Numa outra noite, um homem voltou a sua cela e a estuprou sob ameaças. Em seguida, ele a levou para o banheiro a fim de limpar a sujeira que fez. Ela tinha dezessete anos, assim como suas colegas que desapareceram. Todas eram estudantes.

Este texto é uma adaptação de “The Autonomous Sex”, 1ed. Saarbrücke: LAP LAMBERT Academic Publishing AG & Co. KG, 2010. (capítulo 1), por Ana Luiza Libânio (também publicado eletronicamente pela Ohio University) e está na edição de abril do jornal O Cometa Itabirano, bem como na edição de 10 de abril da Revista Rio Total.

Alguns trechos foram utilizados na resenha de “Vidas provisórias“, publicada neste site.

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