Abri uma garrafa de cerveja de trigo e coloquei um som na vitrola: Marilyn Manson.

Tirei as pedras dos pés.

Desfiz o nó da garganta.

Tomei um copo de coragem.

Sentei ali mesmo e fiz meu cafuné.

A vida estava difícil demais.

Eu não tinha a menor ideia de o que fazia ali Segui fielmente os ensinamento sociais Constituí família levei dinheiro para casa fiz a janta o almoço e o café da manhã O lanche da tarde eu comprava pronto na padaria da esquina Levava os filhos para a escola busquei e participei de reuniões de pais Sempre que pude comprei flores para enfeitar a sala de estar Contratei e demiti empregados passadeiras faxineiras Levei os meninos para festas e de madrugada busquei Fiz listas de natal, supermercado e de filmes Levei lista e ainda assim esqueci o que levar para casa Ronquei Acordei com o ronco alheio Comprei livros para a garotada li contos de fadas para que caíssem no sono Li contos eróticos no banheiro e escondi revistas pornográficas debaixo do colchão Tomei cachaça Tomei Providência Tomei Nabunda Tomei 51 Vomitei Meu esôfago ardeu Minha memória não me conta tudo o que aconteceu E eu estou muito bem Chatterton é que não está Suicidou-se Meus pontos vírgulas e ponto-vírgulas estão todos com aqueles que Saramago guardou Coloquei-os na mesma gaveta Já que eu não tive tempo de conhecê-lo minha pontuação conhecerá a sua Pausa Pausa um pouco mais longa Pausa longa ou final. (Ana Luiza Libânio, em Unhas e devaneios)

Esse texto não é o que eu sou.

Esse texto não é você.

Esse texto, e qualquer outro texto, é um outro sujeito que está em diálogo comigo e com você.

Ele me provoca. Ele me pergunta se eu tenho alguma coisa a ver com ele. Quer saber se compro livros para a garotada, se leio contos eróticos, ou se já tomei Providência. Ele quer saber se eu sei o que é Providência, Nabunda, 51. Ele quer saber se sei quem foi Chatterton, e se eu sou tão falsa quanto esse poeta inglês, ou ele quer me fazer pensar que ele é tão falso (ou não) quanto o poeta.

O texto me provoca, porque transito nele com inúmeras perguntas e ainda saio com outras. Quero que ele continue.

Ele é diferente e chama minha atenção.

Justamente por ser diferente.

O diferente é belo, é exótico, é… diferente.

E o que você pode fazer para incentivar a diferença? Para provocar a valorização do diferente? Porque… será que só podemos achar belo o que nos representa? Ou podemos aceitar que outros indivíduos, outras linguagens, outros contextos tenham sua beleza?

Qual é a linguagem da diferença? E o que ela quer nos mostrar?

“— Índio, tu não conseguiu falar com os amigos de Bangu, porque tu tá tentando falar com a ala norte, que tá bloqueada. Na ala sul, o Silvinho tá fazendo contato, normalmente.

— Porra, eu não tô entendendo. (…) Tu vem aqui, Noca, com teu pessoal, pra me criar problema, na frente do meu pessoal e de todos os amigos do Rio, da Baixada, de São Gonçalo, do interior de Niterói? (Luiz Eduardo Soares, em Elite da Tropa)”

A linguagem da diferença é aquela que construímos, porque nós temos capacidade de povoar as palavras com significados: criamos, reutilizamos, reciclamos, descartamos… É a linguagem que usamos para representar o mundo, tal qual o vemos, tal qual o sentimos, de maneira que possamos reconhecer: é… não somos todos iguais!

E nesse jogo precisamos sobrepor linguagens em um chiaroscuro — como Caravaggio na pintura e Ingmar Bergman no cinema — para criar contraste.

Contraste entre personagens.

Entre personagem e leitor.

Entre textos.

Porque é a partir de contrastes que entendemos as diferenças.

“Tome Vossa Alteza, porém, minha ignorância por boa vontade, e creia bem por certo que, para aformosear nem afear, não porei aqui mais do que aquilo que vi e me pareceu.” (Pero Vaz de Caminha)

E então o diferente fala e é ouvido.

Quando alguém escreve com a intenção de dar voz a um determinado discurso, parece haver um comprometimento político implícito na ação de escrever. Ao descrever alguma experiência, reclamamos espaço para o que antes estava isolado e trazemos essa experiência pra uma realidade mais próxima.

a mulher pensa

a mulher pensa com o coração

a mulher pensa de outra maneira

a mulher pensa em nada ou em algo muito semelhante

a mulher pensa será em compras talvez

a mulher pensa por metáforas

a mulher pensa sobre sexo

a mulher pensa mais em sexo

a mulher pensa: se fizer isso com ele, vai achar que faço com todos

a mulher pensa muito antes de fazer besteira (…)” (Angélica Freitas, em Um útero é do tamanho de um punho)

Como a literatura se envolve nas questões de gênero, na diversidade?

Através dela podemos perceber mudanças ocorridas ao longo dos tempos?

— Marcos, entenda: sou Sa – pa – tão! Gay. Entende isso? Sou homossexual.

— Fase, Carmen. Você só precisa se tratar. Olhe, prometo que te ajudo com isso.

— Você está enganado. Isso é o que sou. Ninguém muda sua essência. Ninguém muda para o outro. Eu não vou mudar. Principalmente para você.

— Carmen, você está enganada. Vá se tratar. Pago as despesas. Faço questão de contribuir. Quero sua melhora. Ficará boa logo; procuraremos o melhor lugar para cuidar dessa… Como podemos chamar? Doença?

— Pare com isso Marcos. Você me dá nojo. Pelo amor de Deus… Não vai… De novo… Dessa vez conto pra todo o mundo.!

— Olhe, sejamos práticos, Carmen. Pago o tratamento, em pouco tempo estará melhor, ficará junto a Pedro, nós viveremos felizes. Você em casa, onde é lugar de mulher. Trabalharei para garantir o melhor tratamento para Pedrinho. Claro, o seu também será o melhor. Faço questão. Não medirei despesas. O que acha disso?

— Inacreditável…

— Não responda agora, Carmen. Pense — apontou com um indicador, com o dedão da outra mão. Piscou um olho. — Ligo amanhã. Decisões jamais devem ser precipitadas. Coloque a cabecinha no travesseiro e pense, Carmensita! Mas, aqui: aquela neguinha devia dormir no sofá, não é? Essa coisa de duas mulheres dormirem juntas… E, a propósito esse animalzinho… É rato, não é?

— É chinchila, chega, Marcos, vá embora.

— Esse bicho é meio retardado… Vê se dá um jeito de se livrar dele. De retardado basta…

— O quê, Marcos? Basta quem?

— Quero dizer… O síndico do meu prédio não permite animais de estimação.

— Retardado? Neguinha? É a… Droga! (Ana Luiza Libânio, em A história de Carmen Rodrigues)

Mas depende do autor ou autora escolher entre reforçar, ou desafiar as diferenças. Reforçar, ou quebrar os padrões. Sentar-se quieto dentro da antiga, retrógrada zona que lhe dá conforto, ou estabelecer novos paradigmas. Insistir nos obsoletos estereótipos, muletas para quem não sabe criar, ou andar e deixar que personagens caminhem com sua própria linguagem. Como nas piadas preconceituosas, humilhar quem já está diminuído, ou criar textos transgressores, transformadores. Contentar-se com um texto raso por estar ancorado em preconceitos solidificados, ou quebrar barreiras e incluir no discurso social a diversidade, sem humilhação, porque quem é talentoso encanta pelo que é e não pelo que destrói no outro.

Como atuamos para reforçar ou desafiar as diferenças?

A quem é de direito a fala? Quem pode escrever as diferenças?

Todos nós. E a literatura é um armário escancarado que mostra todas as possibilidades, os diversos gêneros, as distintas linguagens.

E na escrita criativa estabelecemos significados, ou ainda, resignificamos padrões, por exemplo, uma lista de supermercado não é um poema.

Mas um poema pode ser uma lista.

“Coisas que são iguais embora soem diferentes. A fala do religioso. A fala do homem, a fala da mulher. Na fala dos medíocres sempre sobram palavras. O comedimento, sim, soa elegante.

Coisas que são desprezadas. Pessoas feias e de mau caráter. Cola de arroz cozido e apodrecida. São coisas que todas as pessoas evitam, mas nem por isso vou deixar de registrá-las. Elas existem no mundo (…)” (Sei Shônagon, em O livro do travesseiro)

E é porque coisas existem no mundo que o seu trabalho como escritora e escritor se resume a prestar atenção no mundo real, nas pessoas reais que estão a sua volta e então contar sobre seu comportamento. Contar. Talvez você descubra manias estranhas em alguns amigos.

Como isso pode ser bom pra você?

Pode não ser! Pode ser nada. A não ser que você coloque isso em suas histórias, de alguma forma, ainda que desconstruindo a realidade.

Se sua personagem fala como você, autor, autora, é você quem está falando e não a personagem.

A diversidade garante uma boa história, na medida em que sua narrativa se baseia nas personagens, não nos eventos e nem em você. Mostre-nos quem são essas personagens e elas irão se comportar como se estivessem tanto na história quanto na vida real.

Mostre a riqueza de sua história.

Seja honesto com a diversidade. Mostre-nos que você entende: A vida é feita de diversidade.

Porque o mundo lá fora não é constituído só disso ou daquilo.

O mundo é sempre muito mais.

Quando trabalhamos direito, as personagens tomam vida e fazem aquilo que bem entendem. E provocam o leitor, porque são sujeitos participantes desse grande diálogo que é a vida.

[Texto apresentado no V Congresso luso brasileiro de autores James McSill, em São Paulo, maio de 2015.]

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