Para quem ama, o feio bonito lhe parece.

Um dos problemas da humanidade é que as pessoas, em geral, esperam do outro a “conduta adequada”.

Os tempos sempre foram de acirradas batalhas. Cada um a defender aquilo em que acredita, seja na religião, na política ou no futebol. Sem falar que alguns somente respeitam a cor, o sexo, a maneira de gozar que mais lhes agrada.

A violência que vivemos é antiga.

Pessoas já foram queimadas, enforcadas, afogadas porque não apresentavam uma conduta adequada.

A quê?

Ao certo, ao normal, ao padrão.

Então, vamos definir isso.

Era fim de ano e eu lidava com trabalho, família e convite de amigos. Reencontros e conversas que há muito eram prometidas e não podiam ser cumpridas finalmente saíram dos planos. Certa noite, vesti minha mais confortável bermuda, a mais fresca camiseta e calcei um par de sandálias — sem mangas, sem pernas, tentei ficar sem calor.

Ao entrar no apartamento de meus amigos — um divertido casal de homem e mulher — ele me olhou a distância e comentou minha aparência física. “Ana! Tá gorda, tá bem. Bonita” — algumas vogais prolongadas.

Ri. Agradeci.

Elogio inesperado.

A noite seguiu bem, com jantar, espumante e muito calor.

No mês seguinte, em outro encontro, dessa vez com amigos e parceiros de trabalho — três homens artistas — o assunto gordura assumiu a pauta. Entre barrigas, figurinos e dietas, contei da noite em que fui elogiada pelo marido de uma amiga.

Mas gorda é elogio?

Será que estou gorda mesmo?

Depende de quem me vê. Isso é relativo.

Adjetivos são palavras vazias que povoamos conforme nossos conceitos, isto é, damos a elas o significado que acreditamos ter. Pesquise o significado de “gordo”.

Eu te ajudo e escrevo aqui algumas definições encontradas no dicionário Houaiss:

Gordo é o que tem gordura, que tem carne, que não está magro — Entendi. Mas o que é magro? Seria o que não tem gordura, não tem carne e não está gordo?

Gordo é o que tem dimensões avantajadas, maiores que o comum — Entendi. Mas o que é o comum?

Gordo é o que tem proporção além do normal — Entendi. Mas o que é o normal?

Gordo é o que tem gordura ou tem quantidade de gordura acima do usual — Entendi. Mas o que é usual?

E assim podemos questionar o que é feio, o que é bonito, o que é grande. Afinal, os significados de cada um desses adjetivos está no que é comum, normal, usual. Em outras palavras, é construção social. Observe pinturas de mulheres de séculos passados e notará que a circunferência do rosto, a quantidade de carne e outras características variam conforme o tempo.

As belas de ontem são feias hoje e talvez as bonitas de hoje antes não agradassem.

Quando meu amigo disse que engordei e estou bem, o que ele quis dizer? Qual é o padrão que ele segue?

Dentre tantas coisas que podemos pensar para analisar o comentário amigável, ressalto uma: o camarada é fazendeiro, criador de gato.

Ora, se tudo é dito por um observador, que tal levar em consideração o olhar que observa. Naquela noite, fui observada por alguém que entende o engordar como estar saudável. O problema é ele pensar que estou pronta para o abate. Mas isso é papo para um texto de comédia. Aqui, falo sério!

O fato é que o outro tem um papel importante na existência do um. Mas há que se ter cuidado nessa relação.

Quando um amigo diz ao outro da gordura excessiva que enxerga nele, é provável que o “gordo” acate e ainda peça dicas de dieta, ele pode ainda lamentar e falar dos problemas que o levaram a engordar, ou ele pode mandar o amigo à puta que pariu. Mas a probabilidade de alguém se sentir magoado a ponto de lançar fogo contra o sujeito crítico é pequena. A menos que o nível de trauma seja bem grande.

Isso não se aplica aos conflitos que vivemos há milênios. Na história deste mundo cruel, alguns comportamentos acabam em bombas, reprimendas e morte de inocentes.

Até que ponto meu amigo deve se sentir à vontade para me dizer que engordei? E qual é o limite para alguém criticar a religião do outro? Mais ainda: Será que um sujeito deve ter liberdade para falar da sexualidade do vizinho que ele viu entrar em casa aos beijos com um homem?

Limites e padrões.

Eis várias questões.

Por exemplo, a do riso.

Como disse Laerte Coutinho: “O discurso humorístico é também ideológico”. Essa questão de que o politicamente correto é monótono e tornou o mundo menos divertido é discurso de uma pequena camada que está em vantagem para falar dos que estão “por baixo”. Parem com isso! Fazer humor preconceituoso, racista é que é sem graça. Há nada de transgressor, ou transformador em piadas que denigrem negros, mulheres, homossexuais. Pelo contrário. Essas piadas apenas insistem em preconceitos existentes e seguem estereótipos, não provocam um olhar diferente, não são frutos de um pensamento crítico.

Portanto, há limite para fazer piada e o alvo do humor tem direito de contestar. Existe aí uma via de mão dupla! Alguém pode querer que o humorista dê explicações. As pessoas têm direito de se sentirem humilhadas e a liberdade de expressão não pode invadir o espaço do outro. O(A) comediante deve ser responsável, e se acredita que seu trabalho é arte, deve também pensar que arte transforma ou conserva. E ainda que seja para fazer rir é melhor que o discurso seja do tipo transformador.

Nesse momento em que “je suis” está na moda, gosto de dizer que “je suis l’humanité”. Defendo a humanidade. Eu sou branca e preta, homem e mulher, gay e heterossexual, rica e pobre, sou de várias nações, sou crente, católica, umbandista. Sou budista. Amo o feio, barrigudo e sexy e me apaixono por mulheres loiras, morenas, de ancas largas, ou com pernas finas. Gosto dos saradões, admiro os magrelos, encantam-me as carecas, tanto as delas, quanto as deles. Admiro quem anda com as duas pernas e quem perdeu uma. Faço amizade com quem tem manchas na pele, espinhas no rosto e também com quem usa aparelho de audição, visão, locomoção.

Sobretudo, admiro o respeito ao ser.

Eu sou a humanidade e toda sua diversidade.

E sou contra qualquer tipo de violência, com ou sem derramamento de sangue. Gosto da ideia de lutar e incomodar para se livrar da opressão, mas sem violência e sim a partir da transformação.

Não sou obrigada a gostar de tudo que existe. Mas tenho o dever de respeitar a existência das pessoas com o que quer que elas tragam em si. Afinal, o deus com o qual eu não concordo é o deus que faz tanta gente sorrir. O peso que eu não consigo carregar é ideal, sexy, saudável para outras pessoas. O sujeito com o qual eu não transaria é o sonho de algumas pessoas, tanto homens quanto mulheres.

Sou atleticana e confesso: às vezes visto a camisa do Corinthians (literalmente!).

E agora? Você vai se arrepender de ter lido meu texto?

*frase de Humberto Maturana

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