Foto por Ana Luiza Libânio
Foto por Ana Luiza Libânio

2 de agosto, 2009

Eu esperava encontrar nada nesta casa há muitos anos fechada. Quando resolvi explorar, não sabia muito sobre ela. A única informação que me deram: foi fechada no ano em que nasci, 1971.

Viajar no caminhão de mudanças foi fácil, nem mesmo a estrada de terra e seus buracos me desanimaram, o difícil foi descarregar e colocar cada coisa em seu devido lugar. O motorista apenas cochilava.

Andei por todos os cômodos. Abria e fechava as portas na tentativa de aprender e memorizar cada barulho do imóvel. Sempre acreditei que devemos conhecer bem o lugar que habitamos — barulhos, cheiros, a posição das coisas. Saber dos detalhes evita surpresas. Talvez.

Outra coisa na qual acredito é limpeza. Eu jamais conseguiria viver em um lugar sujo. Sempre tirei os sapatos antes de entrar para deixar de fora a sujeira da rua. Nesta casa, planejei o mesmo. Próximo à porta, coloquei pantufas para as visitas — mesmo sem saber se as teria. A enceradeira foi uma das primeiras coisas que coloquei no caminhão. E quando de lá saiu, o motorista da transportadora acendeu os faróis, acenou com um bocejo e me desejou boa sorte. Não entendi.

  Ao cair da tarde, eu estava ali, sozinha.

O silêncio tomou conta.

A enceradeira o interrompeu.

A princípio tive medo de acordar alguém. Depois me perguntei: quem? O pior dos barulhos não venceria os quilômetros que me separavam do próximo vizinho.

A minha frente, as tábuas corriam foscas, atrás, seguiam brilhantes. Até eu levar um golpe no peito. O cabo da máquina, como a mão espalmada de um guarda, me impediu de seguir em frente. Tentei, ela insistiu. Dali eu não passaria. Aparentemente nada havia no caminho. A não ser por um pequeno desnível, um defeito no correr da madeira. Mais de perto ainda percebi: A elevação era uma das arestas de um quadrado cortado no piso. Desliguei a enceradeira.

Hesitei por pouco tempo.

Puxei o quadrado para cima. Da abertura escapou a escuridão. Pensei em pegar uma lanterna. Resolvi esperar o dia seguinte. Não havia pressa, eu teria a vida toda para descobrir o que a falta de luz escondia. Mas e se a vida toda fosse somente até ali?

Deitada de barriga para baixo, encarei o buraco até que meus olhos se acostumassem ao breu. Vi que o chão não era muito distante daquele piso de madeira. Levantei-me para buscar a lanterna guardada ao lado da cama, na gaveta do criado-mudo. No caminho até o quarto percebi que já não estava mais sozinha. Um vizinho àquela hora da noite?

O vidro fosco da porta, contornado por um arco de madeira escura, somente conseguia revelar uma silhueta. Parecia uma pessoa baixa, talvez um pouco acima do peso. Por um instante, encarei a figura. Senti que ela me encarava. Andei em direção à porta decidida a deixar entrar quem quer que fosse, mas a sombra partiu. Foi a visita mais rápida que tive, não soube nome, sexo, nem idade.

Retomei o caminho até o quarto, na gaveta encontrei a lanterna e uma foto de meus pais. Sentei-me na cama, na mão direita, luz, na esquerda, meus pais, na cabeceira, o telefone. Embaixo do aparelho coloquei a foto e prometi, em silêncio, que ligaria quando acordasse, se a companhia telefônica cumprisse com o prazo prometido.

Levantei-me e segui para a sala. Olhei para a porta. Olhei para cima. Suspirei. Não queria ver sombra, não queria ver pessoa. À beira do buraco, em minha própria sala, debrucei-me. Acendi a lanterna. Nada. Girei o objeto. O feixe de luz atingiu uma pilha de caixas. Eram várias. Diferentes tamanhos. Uma única forma. Eu queria decifrar o que estava ali, dentro do que era eu. Mas não alcancei.

Teria ido fundo não fosse o golpe.

Misericórdia.

Ainda não sei de quem era a casa. A única informação que tenho: foi fechada no ano em que nasci, 1971.

Clique aqui para ler a continuação: Suspense dois (Estudo em píxel sobre tela)

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3 comentários sobre “Suspense (Estudo em Píxel sobre Tela)

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