Esperava encontrá-la, fui informado de que se mudaria no início de agosto. A casa estava fechada desde o ano em que ela nasceu e eu mal podia esperar para desvendar os mistérios de lá.

No dia primeiro, acordei, fiz a barba, passei a melhor loção que tinha: amadeirada. Não sei porque achei que poderia agradá-la. Camisa branca e calças cáqui. Sapatos marrons. O cinto combinava com o calçado. Eu estava um pouco acima do peso, mas pensava que isso não importaria. Penteei os cabelos para trás. Escovei os dentes.

Kombi por Ana Luiza Libanio
Kombi por Ana Luiza Libanio

Estávamos separados por um caminho de exatos 37 km, que percorri de Kombi.

Quando cheguei, o silêncio era tanto que eu podia escutar minha respiração.

Era óbvio, a mulher não havia chegado. A casa continuava fechada.

Voltaria no dia seguinte. Fiz o caminho inverso.

Seria melhor não pensar muito nela, se eu conseguisse me concentrar em outra coisa.

No final do dia, tomei um comprimido, dormi.

No dia dois de agosto de 2009, acordei, fiz a barba, passei a segunda melhor loção que tinha: cítrica. Não sei porquê, pensei que pudesse ser sua preferência. Camisa listrada e calças marrons. E como o trajeto era o mesmo, os sapatos eram os do dia anterior. O cinto, deixei de lado para a cintura ficar mais folgada. Penteei os cabelos para trás. Escovei os dentes.

Esperei.

Somente depois do pôr do sol percorri os 37 km que nos separavam — era necessário dar a ela um tempo para se ajeitar, caso tivesse viajado durante as horas que não estive lá.

Quando cheguei, o silêncio que encontrei no dia anterior havia sido trocado pelo irritante barulho de uma máquina. Era alto, quase ensurdecedor. Naquela região, qualquer barulho seria exagerado.

Aproximei-me com cuidado, a máquina parou. A luz da entrada estava acesa, mais intensa que a de dentro. Parei diante da porta. O vidro fosco, contornado por um arco de madeira escura, não me permitiu ver o interior da casa. Mas eu podia sentir, sabia que ali havia muita coisa guardada.

Procurei uma abertura. Rodeei a construção. As janelas estavam fechadas.

Ela não me deixaria entrar. Seria difícil, sabia disso, mesmo assim não desisti.

Finalmente encontrei uma brecha. Talvez ali eu conseguisse. Uma porta na horizontal parecia entrada para um porão. Isso era bom, porque porões são, em geral, a essência de quem os tem.

Mas estava trancado com cadeado e corrente.

Forcei. Nada aconteceu.

Voltei até a Kombi para pegar minha ferramenta — é sempre bom carregar consigo um alicate corta correntes para o caso de precisar forçar a entrada, cortar barreiras; e lá estava o meu.

Fui direto até a entrada do porão.

Cortei o cadeado. Soltei as correntes. Levantei a primeira folha da porta, respirei fundo, abri a segunda.

A escuridão de dentro misturou-se com a de fora. Era impossível enxergar um palmo a frente do nariz.

Resolvi arriscar. Lá dentro encontraria luz. Pelo menos era o que eu pensava.

Estava enganado. Não havia luz. A não ser por um feixe que descia do andar de cima, provavelmente uma lanterna, que iluminava caixas empilhadas. Todas retangulares, diferentes tamanhos. Não pude investigar muito, a lanterna apagou. Um baque surdo me assustou, saí acelerado. Não fechei a porta atrás de mim.

Entrei na Kombi e parti.

Eu esperei que ela estivesse lá. Não estava.

Decidi, então, voltar no dia seguinte.

Clique aqui para ler a continuação: Suspense três (Estudo em píxel sobre tela)

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