Zeus parecia estar irritado. Abri uma garrafa de cerveja de trigo e coloquei um som na vitrola: Marilyn Manson.
Tirei as pedras dos pés.

Desfiz o nó da garganta.

Tomei um copo de coragem.

Sentei ali mesmo e fiz meu cafuné.

A vida estava difícil demais.

Eu não tinha a menor ideia de o que fazia ali Segui fielmente os ensinamento sociais Constituí família levei dinheiro para casa fiz a janta o almoço e o café da manhã O lanche da tarde eu comprava pronto na padaria da esquina Levava os filhos para a escola busquei e participei de reuniões de pais Sempre que pude comprei flores para enfeitar a sala de estar Contratei e demiti empregados passadeiras faxineiras Levei os meninos para festas e de madrugada busquei Fiz listas de natal, supermercado e de filmes Levei lista e ainda assim esqueci o que levar para casa Ronquei Acordei com o ronco alheio Comprei livros para a garotada li contos de fadas para que caíssem no sono Li contos eróticos no banheiro e escondi revistas pornográficas debaixo do colchão Tomei cachaça Tomei Providência Tomei Nabunda Tomei 51 Vomitei Meu esôfago ardeu Minha memória não me conta tudo o que aconteceu E eu estou muito bem Chatterton é que não está Suicidou-se Meus pontos vírgulas e ponto-vírgulas estão todos com aqueles que Saramago guardou Coloquei-os na mesma gaveta Já que eu não tive tempo de conhecê-lo minha pontuação conhecerá a sua Pausa Pausa um pouco mais longa Pausa longa ou final.

Quero contar-lhe minha história. Já sabe um pouco dela — se é que presta atenção nas coisas. Mas antes de contar, preciso saber se você realmente tem interesse em conhecer os fatos. Porque, como disse meu mestre, “vou expor-lhe sumariamente o caso. Julgue-o por si mesmo.” A propósito, não dedicarei este conto “ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver” por motivos óbvios: a vida ainda acelera meu cérebro e faz meu coração bater. Não sei se isso é bom ou ruim. Simplesmente é.

Como eu dizia, a vida estava difícil demais. Tenho certeza, você já entendeu essa parte. Tinha tanta preguiça que colocava meus dedos, um por um, na boca de minha gata para que ela mordesse e eu não precisasse cortar as unhas. Comecei a escrever discursos, isso não me dava preguiça — a tarefa era muito mais simples que ir ao Carrefour, participar de reuniões, ou ter que sorrir para os pais que falavam coisas estúpidas, nas reuniões — bastava digitar o assunto no Google, mais a palavra discurso e, como num passe de mágica, meu texto estava pronto. E o que era melhor, sempre pensaram que eu merecia aplausos, de pé. Quer dizer, o palestrante, paraninfo, patrono recebia os cumprimentos, eu ficava a alguns passos, evitava olhar para quem discursou e fingia que as pessoas me reverenciavam. Gozo, para mim, era ver a plateia de pé.

Você já entendeu um de meus problemas, claro. Auto-estima. Além disso, já esperou tanto que agora quer ler o que tenho para contar. Eu sei. Já enrolei demais. Então aqui vai.

Era uma fria tarde de inverno. Chovia.

Espere! Em minhas lições de escrita criativa, aprendi que não se deve iniciar um texto assim, a menos que o clima realmente influencie os fatos. Pensando bem, dizer que a tarde estava fria e que chovia fará pouca diferença. Vou começar novamente.

Sempre que termino um projeto criativo — ou melhor, de pesquisa — daqueles que exigem grande concentração — ou não — por tempo prolongado, gosto de me engajar em atividade que não exige muito de minha capacidade mental. Por exemplo, corto as unhas, porque na verdade minha gata não consegue mordê-las.

O problema é quando corto as unhas e elas me inspiram.

Daí surge uma história.

E o plano de não exigir muito de minha massa cinzenta vai por água abaixo.

Mas, por outro lado, pode até ser que a história, resultado da árdua tarefa de cortar as unhas, seja verdadeira, aí o trabalho é pouco.

Entretanto, devo perguntar: O que é verdadeiro? Afinal, se, como dizia o escritor e político alemão Johann Wolfgang, eu vejo no mundo o que está no meu coração.

Goethe também disse: Amor e verdade, as únicas coisas exigidas de um gênio. Bem, disse tantas outras coisas, mas é na verdade que me apoiarei.

Acho que eu me vendi. Não tenho certeza. Julgue-me se puderes — não disse, se quiseres.

A noite estava fria, a chuva foi implacável. Quando coloquei os pés na calçada, ela caiu — não a calçada, a chuva. Sempre tive medo do número seis, seguido por seis, duas vezes, mas na chuva, só me restava pegar um táxi, ainda que esses números estivessem na placa com um zero à esquerda. Não tenho muita certeza acerca de o que ocorreu depois que entrei no táxi, mas conto assim mesmo.

Sentei-me no banco do passageiro, ao lado do motorista e em frente a um cartão de identificação preso ao painel a escancarar meu futuro: minha alma estava em jogo.

Foi impossível evitar, depois de ouvir a pergunta padrão, dar-lhe resposta inesperada.

“Nem tanto. Estou numa pindaíba danada, nunca tive tanto trabalho com filhos e casa, não aguento mais fazer listas, ir às compras, participar de reuniões chatas, cozinhar e sei lá mais o quê; somente o pensamento já me cansa. Bebo sem parar para ver se dou conta da realidade, mas já nem sei o que é real. Estou perdendo a memória e, para piorar tudo, não recebo, nem faço carinho.”

Olhei para o lado, as mãos no volante tinham unhas grandes, todas as… Nove? Lembrei de Robert de Niro em “Coração Satânico”, na cena em que descascava um ovo com a unha. Alguma coisa assim. Nele, não faltava um dedo, mas nesse personagem que ora lhe apresento, sim.

“Eu posso te ajudar?”

Dei uma gargalhada imediata. Alta. Estridente — pessoas quando ficam nervosas riem, estridentemente e em alto volume, segundo pesquisas.

“Não é o que você está pensando,” disse o motorista.

“Você não sabe em que estou pensando.”

“Verdade.”

“Quer saber no que estou pensando?”

“Se quiser me contar…”

“O que é isso? Pensei que você fosse mais agressivo.”

“Sou democrático. Você me conta o que quiser, não te forçarei a nada, depois faço minha oferta, se você aceitar, ótimo, fechamos negócio; se você não aceitar, o que é uma possibilidade e nunca soube porque as pessoas não encaram essa alternativa, você desce do carro e segue com sua vida e seus problemas do jeito que estão. Não me responsabilizarei nem me esforçarei para que suas dificuldades sejam sanadas. Livre arbítrio. Você escolhe. Não se apresse. Pode pensar. Sem pressão. Então? Já decidiu? Vamos. É pegar ou largar.”

Peguei.

O tempo parecia ter parado, contei tudo em detalhes. Ricos detalhes de uma realidade que saía do coração e passava pela garganta para ganhar o mundo. Eu tinha certeza que aquela era a chance. Tudo mudaria para melhor.

Impossível era tirar os olhos daquelas unhas enormes. Precisavam ser cortadas. Mas isso não estava em pauta. Eu havia lançado mão de meu livre arbítrio e esperava resultado.

Quando o carro parou, desci e não olhei para trás. Entrei em casa, larguei carteira e chaves sobre o aparador, os sapatos ficaram ali mesmo, na entrada. O paletó no chão do corredor, seguido da gravata.

As crianças já estavam dormindo.

Joguei-me ao lado dela, na cama.

Antes de dormir, retornei à sala e olhei pela janela para ter certeza de ter apagado o sinal de táxi. Eu não queria que pensassem que eu estava livre.

Ultimamente, quando chego em casa, tiro os sapatos.

Desfaço o nó da gravata.

Tomo um copo de cerveja.

E acaricio minha mulher.

Durmo “numa nice”.

Hoje, depois de uma jornada pesada de trabalho, resolvi relaxar, cortei as unhas, abri uma cerveja de trigo, coloquei David Bowie na vitrola e cantei.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s