Tenho uma síndrome. Não sei nome, nem origem. Conheço apenas o que sinto. Único sintoma: grande sensibilidade no maior órgão de meu corpo. Incomoda. Arde. Irrita-me o toque. A sensação é semelhante à de queimadura.

Mas é tão somente sensibilidade.

Sou sensível somente ao contato superficial. O que é profundo não me atinge.

Ainda não consegui me casar. Nenhuma mulher entende que choro facilmente. Basta encostar em minha pele, meus olhos se enchem de lágrimas. Se me esfrega, caio em prantos.

Dizem que homem não chora; para mim, basta alguém me acariciar. Estou exposto ao descuido dos outros. Sou do avesso: carrego a alma na pele. Minha superficialidade escondo.

Na tentativa de desvendar minha patologia frequento hospitais, igrejas e consultórios. Há vinte anos me deito no divã de minha vizinha, Abigail Fontes. A casa dela é minha, espelhada. Onde tenho a biblioteca, Abigail tem um consultório, bastante movimentado, por sinal. Gosto de observar as pessoas quando entram e quando saem. Crio histórias para desvendar a incógnita de cada um: término de relacionamentos, fobias, loucuras.

Religiosamente, Abigail entra no carro às sete horas da manhã, e volta às dez. Jamais quis invadir sua privacidade; nunca perguntei aonde vai. Nós tentamos manter distância — imagino que seja necessário em meu tratamento. Nas quartas-feiras, quando pontualmente às sete e meia da manhã deixo minhas costas arderem apoiadas no móvel do consultório de Abigail, ela não sai de casa.

— Então… Em que está pensando?

— Você atende outras pessoas aqui?

— Por que isso é importante?

— Senti no encosto o calor de alguém. Aliás, aqui está quente.

— Fale mais sobre esse calor.

— Vem de fora, estaciona na minha pele, mas não parece entrar fundo.

— O que você espera dessa sensação.

— Eu queria que o calor entrasse mais. Penetrasse. Queria que preenchesse o oco. Entende?

— Não. O que é esse oco?

— Vazio. Mas você não me respondeu: Você atende outras pessoas aqui?

— Isso é realmente importante? Podemos mudar o local das sessões, se preferir.

— Não. Quero ficar aqui mesmo. Estou ardendo.

— Você realmente não sabe que atendo mais gente aqui?

— É…

— É o quê?

— Não sei. Esta conversa não vai me levar a lugar algum. Já descobriu o que eu tenho? Por que, afinal, minha pele arde?

— Precisamos continuar a caminhar juntos: fale mais sobre essa sensação.

Como poderia explicar para Abigail? Já disse o que podia. Minha alma está na pele, minha superficialidade preenche estômago, intestinos, baço. Sou um homem oco.

— Já tentou ser mais frio com as pessoas? Quem sabe não tenta esconder o que sente? Isso pode te preencher.

Comecei a tomar remédio. Não sou mais o mesmo. Abigail estranhou.

— Percebeu o calor do divã? Dormi aí essa noite.

— É?

— Queria que você me sentisse. Mas está muito distante.

— São os remédios.

Agora não sei se choro, ou se continuo a fingir ser o mais superficial de todos os seres humanos.

Na farsa, onde colocarei minha pele, a flor de meus sentimentos?

Ainda estou ardendo.

para Ana Maria Figueiró
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