Vidas provisórias

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O corpo individual era punido.

Sequestro, desaparecimento e tortura.

Assassinato, estupro e extorsão.

O mesmo homem que disse “Prefiro o cheiro de cavalos ao cheiro do povo” também pronunciou, ao tomar posse como presidente do Brasil: “Juro que farei deste país uma democracia”.

(nome: João Figueiredo)

Guerras sujas contra a humanidade. Ditaduras. O terror instalado pelos militares era em nome de uma luta.

(Luta contra os direitos humanos.)

Nesses anos de terror, lei não tinha valor

e o corpo do indivíduo já não lhe pertencia, era violado.

(Frequentemente.)

A violência vestia um disfarce: proteção do corpo social.

As experiências vividas durante os anos de terror, de chumbo, de guerra suja, enfim, de estupidez humana: lembranças impossíveis de apagar.

“Há aqueles que não suportam as sessões de tortura e se matam na prisão. E há aqueles a quem a memória da dor continua atormentando e esmagando por dias, semanas, meses, anos depois. Uns se enforcam, uns se deixam cair de janelas, alguns pulam nos trilhos do metrô. Há muitas formas. (…) A dor incessante [na] memória. Este é o grande poder dos torturadores. A dor não passa. O domínio deles continua.” (Silvestre, p.56)

Foi nesse contexto de terror que Paulo, personagem de Vidas provisórias, de Edney Silvestre, teve seu corpo e mente invadidos pelo sistema — e pela corrente elétrica.

“As pessoas aplaudiam o ditador Garrastazu Médici nas arquibancadas de um jogo de futebol, no maior estádio do país. Aplaudirão esse novo ditador, Ernesto Geisel. E aplaudirão o próximo, e o que virá depois, e o seguinte. As pessoas no Brasil não querem saber se há torturadores. Ou se presos são arrastados por pistas de decolagem, com os braços amarrados a para-choques de jipes e o cano de descarga enfiado em sua boca. Ou se Kubitschek foi assassinado. As pessoas no Brasil, hoje, querem comprar carros zero e tevês coloridas, assistir a novelas, passar férias na praia ou na Europa, ganhar dinheiro na caderneta de poupança.” (Silvestre, p. 168)

Paulo viveu uma vida provisória.

(Exilado.)

Pessoas atravessam fronteiras.
Sem documentos.

Com documentos.

(Falsos.)

Sem identidade.
Com identidade.

(Falsa.)

Quem são eles? Quem são elas?

Imigrantes ilegais. Estrangeiros.

A imigração ilegal, ou imigração clandestina, é aquela que não respeita as leis do país de destino. Há implicações sociais, econômicas, na educação, na saúde. Implica em escravidão, prostituição, criminalidade e infringe os direitos humanos.

Pessoas embarcam nessa para escapar de guerra civil ou repressão, esta por questões de religião, etnia, ou perseguição por algum motivo, muitas vezes, particular.

Em setembro de 2013, o New York Times publicou a estimativa de 11,7 milhões de imigrantes ilegais nos Estados Unidos. Segundo o artigo, essa população não variou muito em três anos.

Imigrantes ilegais morrem nas fronteiras. Desaparecem no mar. São deportados. Ou vivem em condições desumanas.

Em alguns casos, conseguem sobreviver trabalhando como faxineiros, garçons, funcionários da construção civil.

(ou ainda, como escravos sexuais)

Eles são ilegais. Fingem ser o que não são. Carregam nomes que não têm. Vivem vidas provisórias.

(Exilados?)

Por vezes, para sempre.

Barbara, “não quer sentir pena de si mesma nem pensar que cometeu um erro, um engano irreversível quando decidiu [ir para aquele] país (…). As dívidas, os documentos falsos, a ilegalidade, tudo, tudo. Não quer pensar nisso, mas não consegue evitar. Não era para [lá] que [queria ter ido]. Para onde queria ter ido, então? Um outro lugar que não fosse o Brasil. Um outro lugar em que não sentisse medo toda vez que visse um policial.” (Silvestre, p. 79)

Em Vidas provisórias, Paulo e Barbara vivem exilados.

(Falsificados. Machucados. Com medo.)

Mas a vida ainda assim lhes reserva algo a mais.

(Esperança?)

“Somos estrangeiros aqui. somos indesejados. Não porque eu seja puta, a Susana seja puta, você seja faxineira, a Nadja seja cafetina, (…) não importa. Nós não somos nada, aqui. Eles não nos querem, entendeu? Os americanos só querem que a gente limpe a casa deles, que a gente abra as pernas para eles, que a gente gaste nosso dinheiro nos supermercados deles, que a gente se endivide no cartão de crédito deles, que a gente compre as casas vagabundas que eles constroem nos nossos bairros de imigrantes, mas eles estão se lixando para nós, para nossas vidas, para nossos problemas, para nossas doenças, entendeu? (…) Como você se chama realmente? Quem é você?” (Silvestre, p. 208)

Em seu terceiro romance, Edney Silvestre nos convida a viver a vida provisória de Paulo e a de Barbara, também personagens dos dois primeiros romances do autor. Ambos estão distantes de sua origem, mas retomarão o fio da meada de sua história para descobrir quem verdadeiramente são, ou em quem se transformaram.

(quem são/estão eles? serão?)

E a sensação, no final, é de alívio. “Como alguém que finalmente chega à estação depois de uma longa viagem.”

Sensibilidade, pungência e maestria.
Nos três romances, nas personagens, no autor.

(se você não leu “Se eu fechar os olhos agora” e “A felicidade é fácil”, não terá dificuldade para ler Vidas provisórias; seu único problema é: faltam dois livros em seu currículo de leitor)

SILVESTRE, Edney. Vidas provisórias. Rio de Janeiro: Intrínseca. 2013. 240 p.

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