“Eu não conhecia ninguém igual a mim. Não era hetero, não era homo, era trans. Mas o que é ser trans? Eu não sabia. Eu só era diferente. Precisava me reinventar.” (João W. Nery, Viagem Solitária)

Você sabe o que é transexualidade?

Segundo os dicionários, é a qualidade, condição de transexual que, por sua vez, é a pessoa que manifesta o transexualismo, sentimento de total inadequação, ou inadaptação ao próprio sexo e forte desejo de adquirir características do sexo oposto.
Para a OMS é transtorno de identidade de gênero.

Compreendeu?

Se você ainda não teve contato com alguém que viva a transexualidade, talvez não tenha entendido.

Não é doença, portanto, não deve ser classificada como tal — nem deveria ter número CID. Não é desvio de conduta, portanto, não deve ser punida. Não é tara, maluquice, perversão, ou sacanagem.

Mas então, como entender essa “qualidade”, essa “condição”?

João W. Nery abre uma janela para essa realidade que tantos não querem enxergar. Em Viagem Solitária, o relato do autor é pessoal, íntimo, sensível. Dividida em quatro partes — “Desencontros”, “Descobertas”, “Metamorfose” e “Paternidade” — a obra nos leva para um passeio pelas memórias do autor. Vivemos com ele cada etapa da luta para sentir-se adequado, para deixar de viver “dois gêneros numa só vida”.

“Na transexualidade, o indivíduo apresenta uma total inversão psíquica em relação aos seus outros sexos, como o cromossomial e o fisiológico. A mente não corresponde ao corpo com que a pessoa nasceu.” (Ibid.)

“Não é a própria sociedade que nos cobra coerência entre o aspecto físico e o gênero?” (Ibid.)

Voltamos então à discussão acerca de sexo e gênero, sexualidade.

Aceitar a diversidade de gênero, não é, necessariamente, acabar com esse conceito, mas sim, reconhecer que a velha noção vitoriana de sexualidade — a família conjugal — já não nos cabe. Abrir-se para discutir sexualidade, no entanto, também não é banalizar o sexo e erotizar qualquer relação, mas sim, entender que ele faz parte da vida de qualquer ser humano, e que este está muito além da bipolarização — ou dicotomia — feminino/masculino que ainda permeia nossa sociedade.

Transexual é também um gênero. Transexualidade é apenas mais um substantivo para definir e enquadrar um ser humano na sociedade. Entretanto, o transexual nada mais é que um ser humano que deseja e merece ser feliz.

Livros de referência:
Thomas Laqueur, Inventando o Sexo: Corpo e gênero dos gregos a Freud. Ed. Relume Dumará.
Michel Foucault, The History of Sexuality: An Introduction, Vol. 1. Vitage (no Brasil, publicado como A História da Sexualidade)
Anne Fausto-Sterling, Sexing the Body. Basic Books.
Judith Butler, Gender Trouble. Routledge.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s