O que foi até recentemente um tabu está neste momento a caminho de ser um tema livre. Desde programas televisivos que abordam o assunto à literatura “de nicho”, sexualidade está, cada vez mais, presente como tema de debate nas mesas, salas, saguões e onde mais  tiver gente.

Hoje já entendemos que há várias diferenças entre os gêneros. São tantas que pode-se dizer que há mais de dois, isto é, seria injusto resumir os indivíduos em feminino e masculino. Fazer isso é como estreitar as possibilidades. De fato é o que ocorre: um estreitamento, resumo, simplificação de algo que vai além de diferentes órgãos sexuais. A sexualidade está muito mais dentro de um indivíduo que dentro das calças que ele ou ela veste. Pode-se então pensar em sexualidade como identidade. Ora, se fôssemos dados a perguntar aos indivíduos que conhecemos ao longo de nossos dias qual é a identidade de cada um deles, ouviríamos respostas como:

—Sou mineira.

—M-1.234.567.

—Homossexual.

—Joaquim Silva.

—Heterossexual.

—Rafaela Andrade.

—etc.

—etc.

As identidades são infinitas porque é, conforme o dicionário online Aulete, um conjunto de características próprias de uma pessoa ou grupo que possibilitam seu reconhecimento. Como pessoas e grupos são inúmeros, muitas são as identidades.

Sexualidade é uma característica que permite a identificação de um indivíduo. A primeira questão é: a identificação da qual falamos aqui é nada mais, nada menos que um rótulo. A segunda é o fato de que a identidade é definida a partir de atitudes; portanto, identidades são construídas socialmente. Logo, a sexualidade é uma construção social.

No pensamento mais tradicional, os homossexuais eram considerados um terceiro sexo. Entendia-se que homossexual era aquele homem que se comportava como mulher, ou a mulher que se comportava como homem. Mais tarde, essas identidades sexuais foram destruídas por homens que, por exemplo, jogam futebol e são gays. Ou mulheres que calçam salto alto, usam vestido e são lésbicas. A construção de identidades é tão forte e arraigada que a sociedade, por entender um casal como duas pessoas de sexo diferente e portanto com papéis diferentes seja na cama, seja na administração do lar, por vezes pergunta a casais formados por pessoas do mesmo sexo quem faz o papel de mulher e quem faz o papel de homem. É certo que nessa vida todos temos papéis, mas certo também é que temos o direito de escolher qual será o nosso papel. O ponto aqui então é: não há identidade que não aquela definida pelo próprio indivíduo que a carrega; identidade não diz respeito a ninguém além do próprio dono.

Se um sujeito tem o direito de se identificar como um “pitt bull boy”, como torcedor desse ou daquele time, porque não deixa outros se identificarem como gays? Mais além: Para quê queremos rótulos senão para incluir ou excluir indivíduos?

A verdade é que as pessoas precisam se agrupar. Mas verdade também é que os grupos precisam se respeitar.

Nesse tema sexualidade, há muito tempo a literatura traz histórias. O romance lésbico mais antigo que eu li é intitulado Whisper Their Love, escrito por Valerie Taylor no final dos anos 50 como pulp fiction (romances impressos em papel jornal). A história conta a paixão de Joyce, uma jovem de 18 anos, por uma mulher o dobro de sua idade.

Rubyfruit Jungle é o primeiro romance da escritora Rita Mae Brown, uma famosa autora norte-americana de romances lésbicos. Nessa história, Molly Bolt é filha adotiva de uma casal que vive no sul dos Estados Unidos. Ela brinca com os garotos, descobre que gosta de beijar garotas, é expulsa de casa, vive apertos em Nova Iorque e batalha para ser diretora de cinema em uma sociedade essencialmente machista. Também de Rita Mae Brown é o romance Alma Mater que conta a história de Vic, garota que, até conhecer Chris (apelido unissex da personagem que é uma garota), acreditava que casaria com Charly, filho de uma família proeminente da Virgínia. Vale comentar que Rita Mae Brown já escreveu inúmeros romances e peças de teatro.

Aqui no Brasil, Myriam Campello escreveu o belo romance Como esquecer, publicado pela editora 7 Letras. Nessa história, Julia se vê aprisionada às lembranças de Antônia depois de ser deixada pela companheira. O livro foi adaptado para o cinema e protagonizado por Ana Paula Arósio. O terceiro travesseiro, por Nelson Luiz de Carvalho, publicado pela Edições GLS, tem como protagonistas dois garotos que querem viver o amor proibido. O mais recente dos romance com tema LGBT na minha estante é o Interlúdio de James McSill (sobre este, leia o post homônimo).

A lista é infindável, e ainda haverá muitos outros, principalmente porque, assim como há pessoas que se relacionam com o sexo oposto, há aqueles que vivem, amam e são felizes com pessoas do mesmo sexo. Tanto os heterossexuais, quanto os homossexuais vão ao supermercado, compram carros, pagam impostos, são assaltados, arrumam empregos, são demitidos, ganham na loteria, arrumam namorados, separam-se. Ou seja, independente da sexualidade, ou da identidade de um indivíduo, ele ou ela, pode ser um personagem em potencial. Ora, então nada mais natural que haver, cada vez mais, na literatura, no cinema, no teatro personagens gays. Isso não é mais tabu.

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