Que dia mudou sua vida?

Waris Dirie

Para Waris Dirie foi quando ela completou 5 anos.

De manhã, no colo da mãe, Waris atravessou o deserto, na Somália, para encontrar uma velha senhora.

Em uma rocha, a mãe de Waris sentou-se e a segurou no colo. A veste da garota foi levantada, suas pernas abertas, enquanto a velha senhora tirou de entre alguns objetos uma também velha navalha. O sorriso de Waris transformou-se em gritos e choro.

Naquele deserto, Waris teve seu clitóris removido e os pequenos e grandes lábios cortados. Os cortes foram costurados. No lugar da vagina ficou uma cicatriz. A mulher que mutilou Waris – uma “midgaan” – deixou um pequeno buraco.

De acordo com a Anistia Internacional, em 28 países africanos, por tradição, milhares de mulheres já foram mutiladas. Famílias africanas acreditam que a menina não circuncidada não é pura, porque o que elas têm entre as pernas é impuro. O que é sujo, então, deve ser retirado e ela costurada, para que seja virgem. Quando a menina se casa, na noite de núpcias, o marido a corta com uma navalha, ou seja, ele abre o buraco novamente para consumar o casamento. A garota não circuncidada não pode se casar e é expulsa da vila. Como consequência dessa prática, meninas sofrem com graves infecções, contraem o vírus HIV, ficam estéreis, sangram até a morte, ficam permanentemente abaladas fisica e mentalmente.

Há mulher que lamenta ser mulher.

Ninguém será submetido a tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante.

(Declaração Universal dos Direitos Humanos, Artigo 5)

Apesar de todos os governos de países onde a mutilação da genitália feminina é praticada ter tornado isso ilegal, a prática ainda persiste por falta de punição.

Depois de mais um Dia Internacional da Mulher, vale a pena lembrarmos a realidade do sexo feminino no mundo:

Além da mutilação da genitália em meninas, mulheres adultas são queimadas com ácido quando não se dão bem com a família do marido, ou quando recusam o homem que a corteja; mulheres sofrem violência quando não têm dinheiro para pagar pelo casamento (dote); as mulheres carregam nos ombros a honra da família e por isso, quando suspeita-se de traição, ainda que como resultado de estupro (como se uma mulher estuprada estivesse praticando relação extra-conjugal), elas são violentamente agredidas; no mundo inteiro mulheres sofrem violência física e psicológica, estima-se que a grande maioria das mulheres que sofre violência conhece o agressor; frequentemente, mulheres sofrem violência resultado de sua orientação sexual; agressores são raramente processados.

É sempre bom lembrar que a cultura de discriminação contra a mulher apenas gera violência. E se temos um Dia Internacional da Mulher, vamos usá-lo não para distribuir rosas com espinhos, mas sim para lembrar que ainda há muita mulher que sofre. Mais ainda, não distribua flores, mas sim, ofereça seu respeito. Todos os dias.

Vamos tentar e mudar o que significa “ser mulher”. (Waris Dirie)

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Livro: Flor do Deserto, Waris Dirie, Ed. Hedra

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