O duplo

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Dizem que para Dostoiévski sua mais séria contribuição para a literatura foi seu segundo romance O Duplo, escrito em 1846. No Brasil, essa obra foi traduzida por Paulo Bezerra e publicada pela Editora 34.

Trata-se de um romance psicológico. Nesse texto, Dostoiévski anuncia seu estilo, estabelece sua linguagem e nos coloca frente a frente com o que somos: seres humanos carregados de dilemas, neuroses e angústias. O livro é uma análise psicológica, mas também, crítica social, e isso se repete em toda sua obra.

Em O duplo interagimos com Sr. Golyádkin, um burocrata russo que se vê às voltas com um colega que lhe toma a identidade e parece querer tomar a própria vida do protagonista, que para o narrador, é “nosso herói”. O diálogo, grande habilidade de Dostoiévski, é fenomenal. Ademais de o tradicional “um fala, outro responde”, é bonita a interação das vozes, mesmo quando estão caladas. Mas não me retenho aqui às vozes das personagens, incluo a do leitor que, certamente, não deixa de questionar, duvidar, participar da história.

Golyádkin, um homem aparentemente normal, tem certa dificuldade de estar entre amigos, em uma sociedade de intrigas, inveja e superficialidade nas estratificações. Depois de envergonhar-se por ter comparecido a uma festa para a qual não fora convidado, “nosso herói” sai em caminhada pela cidade. Em seu momento de reflexão, parado em uma ponte, Golyádkin se depara com um sujeito igual a si. Idêntico. Um duplo.

Ele oferece abrigo a “Goliadkin segundo” e a partir daí inicia-se a perturbação do herói que se vê ameaçado e incompreendido. Nada bom poderia ser esperado dessa situação, já que o duplo parece infiltrar na realidade e quanto mais “nosso herói” tenta se explicar, mais ele se ridiculariza. Não é bom apenas para o protagonista, porque para o leitor é uma aventura espetacular acompanhar e dialogar com essas duas figuras que, sabe-se lá, podem ser apenas uma.

O retrato dessa unicidade aparece não só na literatura, mas no cinema, em quadrinhos e desenhos animados. Quem não se lembra de “O médico e o monstro”, história escrita por Robert Louis Stevenson com o título Dr. Jekyll and Mr. Hyde? Há diferença na construção destas personagens, que, neste caso, não são idênticas na aparência física. Dr. Jekyll é cientista e descobre uma poção capaz de trazer à tona um outro ser, Mr. Hyde, escondido pela personalidade socialmente aceita do doutor.

Tanto Mr. Hyde, quanto o duplo do Sr. Golyádkin, apresentam característica reprovadas pela sociedade, são figuras funestas resultantes da divisão psicológica de um indivíduo.  São seres que surgem para dar conforto, mas que, aos poucos, revelam-se maldosos — um deles chega a cometer assassinato. O fato é que em ambas as histórias o bem e o mal vivem juntos, são “dois lados da mesma moeda”, uma dicotomia. São resultantes de uma divisão constitutiva do ser.

Nos quadrinhos, Homem-Aranha e Super-Homem também vivem confronto com seu duplo. E em desenho animado, vale lembrar o famoso caso do Sr. Volante, o duplo do Pateta que, quando está por trás do volante, é um sujeito agressivo.

O duplo, de Fiódor Dostoiévski é um texto fantástico que resulta em um livro impossível de abandonar. É lição de construção de personagem e de diálogo. Do início ao fim nos prendemos a mais esse complexo personagem da literatura russa, mais um retrato do ser humano.

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“Não procuro humilhar aqueles que talvez sejam mais puros que eu (…). Não gosto de meias palavras; a mísera hipocrisia me desgosta; abomino a calúnia e a bisbilhotice. Só ponho máscara quando vou a um baile de máscaras, e não a uso diariamente diante das pessoas.” (p.25)

“Não bula comigo, que eu também não bulo com você.” (p.82)

“Porque, como diz o ditado, guarda-te do homem que não fala e do cão que não ladra.” (p.91)

Dostoiévski, Fiódor. O duplo. São Paulo: Editora 34, 2011.

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