Insubmissas lágrimas de mulheres

Você conhece Aramides Florença, ou Shirley Paixão? Já ouviu falar em Isaltina Campo Belo, ou Maria do Rosário Imaculada dos Santos?

Aramides é a alegre mãe de Emildes, um garoto saudável, realização de seu desejo de ser mãe, fruto do amor entre ela e o pai da criança. Durante a gestação, Aramides viveu a alegria de compartilhar com o marido essa dádiva da vida, até que o sujeito se virou contra ela. Aramides foi estuprada e abandonada pelo marido semanas após o nascimento do filho.

Shirley Paixão também não teve tanta sorte no casamento. O homem, que se juntou a ela e suas duas filhas, trouxe consigo as três filhas dele. Shirley as adotou e passou a ser a feliz mãe de cinco garotas. Até o monstro se revelar. Ela quase matou o marido, mas não se arrependeu. Confessou à polícia seu desejo de eliminar o mal, ficou três anos presa antes de receber a condicional e hoje, trinta anos depois do ocorrido, vive feliz com suas filhas e netos.

Isaltina Campo Belo teve uma linda filha, Walquíria que “se fez sozinha” no corpo da mãe que somente percebeu a gravidez quando a criança estava por nascer. O bebê, fruto de um estupro, cresceu sem saber quem era o pai dentre os cinco garotos que pretenderam ensinar Isaltina “a ser mulher”.

Maria do Rosário Imaculada dos Santos, foi sequestrada aos sete anos e viveu presa em um quarto onde aprendeu a ler, a escrever, ouvia rádio e cresceu sozinha. Somente 35 anos depois, conseguiu retornar a sua cidade natal.

Essas, ao lado de Mary Benedita — dona de um “corpo história” — Lia Gabriel, Rose Dusreis e mais sete mulheres foram retratadas pelas palavras de Conceição Evaristo. A história de cada uma está no livro Insubmissas lágrimas de mulheres. São contos que se conectam por um fio comum: a mulher negra que descobre não precisar ser submissa, que consegue transformar sua dor em resistência e que, mesmo cega, consegue finalmente enxergar seu valor e descobrir que seu mérito não está visível apenas aos olhos. Conceição Evaristo, com maestria, conseguiu mesclar o impacto dos fatos com a sensibilidade artística da contadora de histórias que pretende “traçar uma escrevivência”.

As histórias foram dessas mulheres, agora são minhas e logo serão suas.

Insubmissas lágrimas de mulheres é uma janela aberta para a realidade; é um necessário toque de despertar para o fato de que todos nós conhecemos pelo menos uma Mary Benedita, uma Aramides, Isaltina, ou uma Maria do Rosário.

Conceição Evaristo. Insubmissas lágrimas de mulheres. Belo Horizonte: Nandyala, 2011.

Um comentário sobre “Insubmissas lágrimas de mulheres

  1. Olá Ana Luiza, estou preparando um seminário que trata de assuntos feministas e pensei em analisar um dos contos do livro Insubmissas Lágrimas de Mulheres de Conceição Evaristo, porém não tenho tempo hábil para esperar o livro chegar, no caso de comprá-lo e não estou encontrando nenhum desses contos na internet. Teria como enviar alguns deles digitalizados para o meu e-mail, para que assim meu grupo e eu possamos escolher um deles para trabalhar no seminário?

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