Fui a Paris e me hospedei na Rue de Grenelle, número 7.

“Todas as famílias felizes são parecidas entre si. As infelizes são infelizes cada uma a sua maneira.”

(Leon Tolstói, Anna Karênina)


Renée é uma mulher de cinquenta e quatro anos que trabalha como zeladora em um prédio de luxo – o número 7 da Rue de Grenelle – em Paris. “Viúva, baixinha, feia, gordinha, calos nos pés e, em certas manhãs auto-incômodas, um hálito de mamute”. Sempre foi pobre, nunca estudou, vive sozinha e tem um gato gordo e preguiçoso que se chama Leon em homenagem ao grande Leon Tolstói.

Paloma tem doze anos e é excepcionalmente inteligente. Com seus pais e sua irmã, mora também no número 7 da Rue de Grenelle. Seus pais são ricos, sua família é rica e, consequentemente, sua irmã e ela são “virtualmente ricas”. O pai foi ministro e agora é deputado e a mãe é doutora em letras, “escreve sem erros seus convites para jantar”.

São essas duas das personagens em A elegância do ouriço (L’élégance du hérisson), romance de Muriel Barbery. Com elas, moradores ricos, animais de estimação e um misterioso japonês dão forma à história que nos conta da relação entre as classes, das frustrações em diferentes idades, dos mimos, do que é essencial e do que é episódico. Neste pequeno universo que é o prédio no número 7 da Rue de Grenelle, Muriel Barbery reuniu diferentes vozes a dialogar entre si.

Renée, como um ouriço, defende-se com seus espinhos, e para sobreviver não faz questão de ser simpática, mas apenas corresponder ao que a “crença social associou ao paradigma de concierge [e ser] uma das múltiplas engrenagens que fazem girar a grande ilusão universal de que a vida tem um sentido que pode ser facilmente decifrado.” No entanto, sua elegância é desvendada por Paloma e Kakuro que desconfiam ser a concierge uma mulher de conhecimentos profundos. Paloma, por sua vez, registra em seu diário ter tomado uma decisão: “apesar da certeza de que a vida é uma farsa, não [crê que conseguirá] resistir até o fim” e no final daquele ano, ao completar treze anos, ela se suicidará. Kakuro, o rico japonês misterioso, é um homem sensível que influencia as duas de tal forma a transformá-las.

A elegância do ouriço, não é apenas um romance filosófico, mas também uma leitura inteligente e ao mesmo tempo leve; é estudo e divertimento. Cada capítulo desse romance de Muriel Barbery nos surpreende e nos dá a oportunidade de aprofundarmos cada vez mais em um diálogo social arguto.

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