“D – j – a – n – g – o. The D is silent” *

Django livre (Django Unchaned) é o nono longa-metragem do diretor norte-americano Quentin Tarantino. Segundo ele, um “faroeste espaguete surrealista”.

Gosto não se discute, mas a técnica sim. Enquanto muitos dizem não apreciar a violência, o banho de sangue e os demais exageros, sugiro que esses comentários já estão antigos quando se trata de Tarantino. Já sabemos do que ele é capaz. Portanto, proponho aqui uma breve (para não estragar a surpresa de quem ainda não assistiu) análise do texto e, sem medo, confirmo minhas suspeitas: Tarantino é mestre no que faz. A história é muito bem amarrada por todos os elementos que um bom roteiro exige.

A jornada do herói — Já no início, sem delongas, somos apresentados a Django e sua história; de onde veio e para onde vai. No começo, um pouco acabrunhado, ele é um escravo que abaixa a cabeça para os brancos. O homem se reconstrói, torna-se livre para terminar a jornada como nosso herói.

O que quer que seja inserido na história deve fazer sentido — Esta é uma das regras básicas que os bons autores seguem. Tarantino não faz diferente. Desde o dente que balança de um lado ao outro sobre a carroça do Dr. Schultz à lenda da alemã Brünnhilde, contada pelo mesmo doutor ao herói.

Na mitologia nórdica, Brünnhilde é uma das valquírias filhas do deus Wotan e da deusa Erda concebidas como guerreiras. Ao desobedecer ordens do pai e defender o guerreiro Siegfried, Brünnhilde perde a imortalidade e é condenada a um sono eterno dentro de um círculo de fogo, até ser resgatada por um herói. Mito encenado na ópera de Wagner, “A valquíria”.

Djano livre é uma história que flui, mesmo quando o filme é mais lento. Mas nada é por acaso, mudar a velocidade dos fatos gera tensão, é um momento de virada.

Nota dez para a trilha sonora. Mais uma vez Tarantino acertou nas músicas que vão de Ennio Morricone (compositor e orquestrador com participação em mais de 500 filmes) a Rick Ross (rapper nascido no Mississippi). O álbum com 24 faixas inclui algumas falas dos diálogos para os quais também há que se tirar o chapéu. Agressividade, sutileza, e humor usados com primazia fazem o espectador viajar entre tensão, alívio e diversão.

O elenco também recebe nota dez. Jamie Foxx caracterizou muito bem Django e a gradativa construção do herói, enquanto Christoph Waltz, como o alemão Dr. King Schultz, repetiu o sucesso de atuação em Bastardos Inglórios. DiCaprio brilhou como Calvin Candie, vilão dono de escravos e Samuel L. Jackson, como sempre, merece aplausos.

Também está no filme Franco Nero, o Django original, personagem de faroeste italiano. Aliás, genial sua rápida aparição. Se prestarmos bem atenção, ele dá dica de quem é.

Se há um roteirista que me serve de modelo é Quentin Tarantino, mestre na arte de contar histórias sem deixar de abordar questões tão pertinentes da alma humana. E já que pretende aposentar como diretor e roteirista e tornar-se “apenas um escritor” só me resta esperar por bons textos literários. (Entrevista com diretores: Quentin Tarantino fala de sua vontade de largar o cinema)

* “O D é mudo”.

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