Ao anoitecer

O ritmo, acelerado, não dá trégua. Manifestação da vida moderna. A não ser quando algo se coloca no caminho — ou ainda, sai do caminho — nesse caso, tudo muda.

O ritmo muda. Desacelera. Ou acelera. Por vezes, desnorteia.

O último romance de Michael Cunningham, Ao Anoitecer, começa com Peter Harris, em seus quarenta anos, casado com Rebecca há vinte, preso no trânsito de Nova Iorque, depois que um automóvel colidiu com um cavalo dessas carruagens que levam turistas. O animal morreu — morte: símbolo de desvio, erro, mudança.

Na costumeira rota de Peter, surge o erro para alterar o ritmo, mudar o rumo. É Mizzy — “Mistake, o Erro, vem para ficar algum tempo” — seu cunhado, que vai passar uns tempos com o casal, depois de sair da clínica de reabilitação. Ele tem 23 anos, é o caçula, filho de pais mais velhos, dono de beleza comparável ao bronze de Rodin, não confiável, sem rumo na vida, instável.

O desequilibrado traz mudança e Cunningham nos mostra isso muito bem, tanto no ritmo do romance, quanto nas cenas, propriamente ditas. O texto lento do início abre espaço para uma série intrigante de acontecimentos; acelera. A tão contada história acerca do Outro que chega para mudar o que há nessa obra vem em ritmo que acaba por nos fazer devorar as páginas. Nem mesmo as, por vezes cansativas, elucubrações artísticas — Peter é dono de galeria de arte — nos desanimam. A trama instiga.

Tal qual o Cunningham de As Horas, em Ao Anoitecer o autor nos coloca dentro da personagem; ele sabe expor a angústia, os medos, enfim, sentimentos em geral enterrados por uma vida de rotina medíocre. E os sentimentos de Peter Harris são tão verossímeis que por vezes nos sentimos ele.

Esse homem, sempre em busca da beleza negociável, acaba por se ver intrincado em rede tecida agora por seus próprios erros. Somente no desacelerar da vida, ao entardecer, ele tem chance de rever o que houve e de se preparar para iniciar um outro, novo e fresco dia. É a oportunidade de tentar.

O anoitecer permite fazer diferente e não cair na mediocridade de uma vida “filha da puta”, como diria Peter. Afinal, se queremos crescer e não somente envelhecer, precisamos aprender a deixar coisas de lado, precisamos estar atentos, é necessário levantar o tapete, trazer os resíduos para fora e, verdadeiramente, limpar a sujeira.

Michael Cunningham. Ao Anoitecer. 2011. Companhia das Letras.

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