Um advogado, “homem de certa idade […] que desde a juventude sempre teve a mais firme convicção de que a forma de vida mais fácil é a melhor” (MELVILLE, 2009, 1), possui escritório em Wall Street. E nessa função fez contato com homens “aparentemente interessantes e um tanto diferentes a respeito [dos] quais nada […] jamais foi escrito” (Ibid.). São esses, os copistas ou escrivães. Mas ninguém foi mais diferente que Bartleby. E é a história deste escrivão que – quer dizer, parte da história, já que escrever sua biografia não é possível por não haver material suficiente – o advogado-narrador, personagem de Herman Melville, nos conta nas páginas de Bartleby, o escrivão: uma história de Wall Street (Bartleby, the Scrivener: a Story of Wall Street).

 

 

Atenção para a belíssima edição da Cosacnaif

O narrador tem por atividade verificar títulos, preparar e copiar documentos de todos os tipos. Certa ocasião, a demanda cresceu inesperadamente e fez-se necessário contratar mais um copista para o escritório. Foi quando apareceu à sua porta um “jovem inerte […] levemente arrumado, lamentavelmente respeitável, extremamente desamparado! Era Bartleby” (Ibid., 7). O advogado conversou um pouco com o jovem e resolveu contratá-lo, feliz com a possibilidade de ele influenciar, com seu sossego, os demais copistas.

Tudo ia bem até que o patrão solicita a seu funcionário que o ajude a conferir um pequeno documento e este responde: “Acho melhor não” (Ibid., 9). A partir daí, é esta a resposta de Bartleby aos pedidos que lhe são feitos. Ele desarticula o comando do patrão. Sua fala demonstra a recusa em agir conforme o patrão comanda. E é também a partir dessa fala de Bartleby que podemos traçar uma análise a cerca da relação entre o um e o outro – veja em Lacan discussões que envolvem a relação com o outro, assim como questões que se referem à fala e à linguagem.

Serei sucinta em minha análise: Ele exclui o outro (AIRES, 2007). Deleuze afirma “Bartleby é o homem sem referências, sem posses, sem propriedades, sem qualidades, sem particularidades […]” e através de sua frase, ele transforma o outro em alguém da mesma forma sem referências, sem posses, sem propriedades, etc… (Ibid.) Ora, ao excluir e transformar o advogado-narrador, Bartleby nos exclui e nos transforma também.

Sua fala recusa o ato e o outro. “Acho melhor não” – ou no original: I would prefer not to – não repete, ou seja, rompe com a repetição esperada: melhor não, o quê? – to what? – A que se refere Bartleby? Ele prefere não preferir. Ao nãopronunciar o que ele preferiria não fazer – ou seja, aquilo que o advogado solicita – Bartleby nega a existência daquele que solicitou algo. No entanto, com essa fala ele simultaneamente exclui e inclui o interlocutor. Portanto, ao mesmo tempo em que ele exclui, ele inclui o outro, um outro que é ouvinte, que interessa-se em construir seu enunciado, já que este requer  uma construção de sentido.

Mas bem… Há outras questões que chamam atenção no texto. Primeiramente sua escrita que é genial – algo a se esperar quando se tem um Herman Melville em mãos. Chamou-me atenção também a questão da morte nesse texto. Você verá que Bartleby é um homem já morto, mas isso faz parte da “fórmula” criada por Melville e dela, você precisa participar.

Quer que eu escreva mais sobre esse livro?

Acho melhor não.

MELVILLE, Herman. Bartleby, o escrivão: uma história de Wall Street. São Paulo: Cosacnaif, 2009.

AIRES, Suely. Estilhaços de performativo: Bartleby e o outro. In: Revista de Letras, São Paulo, 47 (2): 169-183, jul./dez. 2007.

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