Por vezes tarde demais conhecemo-nos a nós mesmos.  O que resta, então, é o silêncio.

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Concisão imaginativa, prosa poética, camadas de sentido. A fera na selva, ou Henry James, é um Machado de Assis norte-americano (ou britânico), que analisa as questões humanas aprofundando-se na psicologia, sem deixar de lado a estética literária, a forma.

A fera na selva é uma história de amor, história de encontros e desencontros de um homem com uma mulher e a psique dos dois.

A fera na selva
A fera na selva, por Henry James

Henry James, ao contrário de muitos ficcionistas, cria sua obra a partir da diegesis, isto é, a trama conta sua história a partir das personagens, de um narrador e dos diálogos. Não é mera imitação, ou representação do real. Para tanto, James se dedica a metáforas, à criação de imagens, a símbolos, os quais constituirão a história. O narrador é indeterminado, o ponto de vista é do protagonista, John Marcher, que contracena com May Bartram.

A trama inicia-se com o encontro entre John Marcher e May Bartram em que ela o faz lembrar a confissão feita anos antes daquele encontro: John esperava evento “raro e estranho”, “prodigioso e terrível” acontecer. Em outras palavras, John esperava pela fera que a qualquer momento o atacaria ao, repentinamente, sair da selva.

May coloca-se próxima a John para, junto com ele, esperar pela fera. A atitude da mulher representa para ele a companhia de que não dispunha; ele sempre fora um homem solitário. Ela, portanto, passa a dedicar-se exclusivamente a ele. Ele, no entanto, perde a oportunidade de apaixonar-se por ela. John reconhece a dedicação de May, mas não pode casar-se com ela. Segundo ele, é um homem fadado a algo ruim, está ameaçado, condenado. Ela, linda mulher, não merece ser levada a viver a desgraça que a ele está destinada.

May acaba por ser acometida de um mal irremediável, sua morte está anunciada por doença fatal. John, então, sugere que a morte da amiga seja o ataque da fera, que por toda a vida esperara.

Nesse ponto, segundo Modesto Carone em posfácio à edição, “o excesso de amor pelo outro (May) não é proporcional ao excesso de amor por si próprio (Marcher)” (p. 89). John finalmente questiona-se acerca da doença de May. Estaria ela à beira da morte por sua causa?

May declara a John que a fera já o atacara, mas que ele não percebera.

O drama de Henry James acerca do autoconhecimento, é trágico, profundo e de grande pertinência. A novela é curta, inversamente proporcional à profundidade do tema. É um clássico que se deve apreciar.

JAMES, Henry. A fera da selva. São Paulo: Cosac Naify, 2007.

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