A cabeça do santo

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O tempo de sonhar é em cima da terra.

Em 13 de junho, de 1231, morreu Antônio, um homem bom, milagreiro, que confrontava os hereges, curava os doentes e ajudava os pobres. Antônio pregava o evangelho, e segundo consta, fazia isso até debaixo de chuva, e as pessoas que o ouviam não se molhavam. Foi trabalhador, morreu de exaustão e um ano depois, Papa Gregório IX o canonizou.

No Brasil, Santo Antônio é casamenteiro e provavelmente por isso o dia dos namorados é comemorado em 12 de junho, véspera do dia dele.

Mas este texto não é sobre Santo Antônio. É sobre uma cabeça. A cabeça dele, de Antônio, o santo, aquela…cabeça gigante, oca e assustadora. É também sobre…um corpo magro e faminto, uma sombra que não parava de andar, Samuel, ocupante da cabeça degolada, seu único abrigo no mundo.

Aliás, este é um texto sobre um texto que fala de Candeia, de Canindé, das pessoas e dos milagres. Fala sobre corpo, coragem eIMG_1672 amor. Este, tenta ilustrar o que não é possível traçar: a emoção de ler “A cabeça do santo”.

Livro sobre nós, cidadãos do sertão,
este aqui, esse aí, esses todos,
dentro de cada um de nós:
sujeitos a caminhar para cumprir a grande promessa que é a própria vida.

Nas entrelinhas, sobrelinhas, sublinhas, “A cabeça do santo”, em todas suas linhas, é sobre um negócio que a gente sabe quando vem, a força estranha [que] chega e, pá!, a gente sente.

O romance de Socorro Acioli é uma contação que mais parece delírio, um delírio proseado e mágico — que chega a ser poético — de um corpo de santo degolado no alto do morro. Um santo que guarda mistérios. Uma cabeça que ecoa vozes de mulheres, várias, falando ao mesmo tempo. Falando, falando, falando (…) reza, briga, conversa, tudo ao mesmo tempo. Vozes que não param, mesmo sem haver alguém por perto, mesmo onde há só mato, chuva fina e silêncio, onde nem o sol fazia barulho para acordar.

Samuel, sem entender como, era o único que escutava as rezas presas no concreto da cabeça do santo degolado, em Candeia, cidade quase nada, não mais que vinte casas mortas, uma igrejinha velha, um resto de praça. Algumas construções (…) invadidas pelo mato, incompletas, sem paredes, onde nem o ar tinha esperança de ser vento, mas que outrora fora terra pacata, pacatíssima, com quase mil habitantes espalhados nas ruas simétricas, minuciosamente planejadas pelos fundadores do lugar.

Em Candeia, ele chegou para cumprir a promessa feita para a mãe e lá, com seu ajudante Francisco, filho de Chico Coveiro, ajudou o santo a fazer milagres. Até que encontrou o seu próprio milagre.

Se você não leu “A cabeça do santo”, ainda dá tempo, porque, como diria Chico Coveiro, final mesmo é só quando seu caixão baixar na cova, ainda dá tempo de muita coisa.

— Tu sonha muito, Chico.
— Foi a morte que me ensinou.

Todas as citações foram retiradas de:
ACIOLI, Socorro. A cabeça do santo. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. 176 p.

Fotografias das capas por Ana Luiza Libânio.

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