Viva e deixe viver

Uma carta para Dona Morte

Belo Horizonte, 26 de agosto de 2013

Prezada Sra. Morte,

Venho por meio desta gentilmente solicitar que tire férias. Vá passear na praia. Toque em outras bandas. Ou então, não toque mais. Chega. Viva e deixe viver.

Entendo que a senhora queira cumprir metas. Mas, sinceramente, não acha que está na hora de pendurar a foice?

Podemos pensar em alguma alternativa. Talvez um sistema de transporte com duas linhas, uma para cima, outra para baixo com passagens a preços módicos. Assim evitamos a saudade.

Por favor, Sra. Morte! — aliás, você tem rondado muito as bandas de cá, está ficando íntima, posso te chamar de você e deixar de lado a cerimônia? — Essa coisa de querer levar pessoas próximas, ídolos, pessoas que nunca antes morreram… Faça-me o favor! Já está passando dos limites.

Vai me dizer que procura tratar bem as pessoas, preocupada em proporcionar alívio imediato para alguma dor? Mentira! Você só quer saber de nos passar sustos. Já entendi, há muito tempo, que sua presença é para nos causar medo. Você é o limite que nos é imposto. Trabalha nesta Terra sem tirar os olhos de nós, de forma que, mesmo quando ainda não vamos morrer, sentimos que somos observados, perseguidos, para que, a um pequeno deslize, sejamos ceifados.

Semana passada fiquei indignada: estava tranquila, trabalhando, resolvi fazer uma pesquisa sobre algo que já nem consigo me lembrar tal foi o trauma — catapuf! — meu mundo caiu. Mais uma pessoa seguiu a luz. Mais uma alma brilhante foi levada por ninguém menos que você, Dona Morte.

Não me entenda mal — entenda o que quiser, ora! você mesma nunca procurou saber se compreendemos ou não as situações que cria — não gosto de você.

Para quê carregar uma foice?

Por que não nos mostra sua cara?

Para onde nos leva?

Puxa vida!

Ah! Dona Morte, dá um tempo, vai?!

Topa uma viagem a Paris? Vá ao alto da Torre Eiffel. Quem sabe lá a senhora encontra um bom par com quem se casar? Mas, por favor, contenha-se lá em cima.

Deixe de ser egoísta! Está aí colecionando figuras amadas, queridas, idolatradas só para você. Recentemente ceifou a vida de algumas pessoas que eu muito admirava. Isso doeu, viu? Não dá para fazer um cronograma melhor com intervalos que permitam nossa total recuperação?

Sinceramente, dá um tempo. Nunca fiz qualquer coisa para lhe machucar. Por que me trata assim?

Por que nos trata dessa maneira?

Já pensou em passar temporada em um Spa? Imagine trocar essa capa preta por um robe, macio e felpudo.

Já sei. Vai agora argumentar que está em parceria com Dona Vida e que ela precisa de você.

Então pelo menos por alguns anos, viva e deixe viver.

Como pode aguentar ver sofrimento? Como pode suportar o choro de quem tem saudade?

Dona Morte, por gentileza, apenas tire umas férias.

Praia, campo, ou cidade, não importa. Vá passear. Volte depois. Enquanto isso, aproveitaremos sua amiga Vida.

Tenho certeza, ela também vai gostar!

 

Atenciosamente,

Ana Luiza Libânio

Este texto foi publicado na Revista Rio Total.

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