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Um homem de proporções avantajadas entra na fila para o embarque. Nas costas, uma etiqueta grita: “Frágil. Carregue com cuidado.”

Na quinta fileira, na primeira classe, um senhor tem os dedos frenéticos a digitar em seu iPhone. Parece ser um tuíte. A capa de proteção do aparelho, em perfeita sintonia de cor com sua gravata borboleta listrada – vermelho e branco – compõem o sujeito, dono de pequenos óculos redondos que descansam no nariz.

Viajar é abrir uma caixa de surpresas – com fundo falso.

Alguém consegue entender o que falam os alto-falantes? Ou todos apenas deduzimos?

A menina ao lado reza. A frequência parece cronometrada por algum equipamento que a desperta de dez em dez minutos – um relógio de pulso, talvez? – para seguir a recomendação. Quem sabe alguma receita médica?

Uso externo

Reze de dez em dez minutos desde a decolagem até a aterrissagem. Coloque as duas mãos sobre o rosto e pronuncie alguma ladainha ininteligível, exceto pela palavra “mal”, faça-a ser compreendida. Sinal da cruz – três vezes antes, três vezes depois da reza.

Sem qualquer espécie de ritual, talvez por estarem acostumados às alturas, soldados contam piadas. Cinco deles, em diferentes fileiras, riem. Seriam eles os únicos a entender os comentários? Piadas internas?

Um bebê não consegue acalmar sua mãe.

Um garoto aterroriza os demais passageiros “da cozinha” com gritos que talvez tenha aprendido em algum filme de monstros. Estarão todos agora assustados com o susto do assustador garoto? Ou estaria o garoto assustando com assustadores gritos os demais? Seriam os demais assustados por assustadores sustos do garoto? Assustadores sustos assustados. Ah!

Nos outros aviões, que a vista alcança, provavelmente há sustos, choros, piadas. Ou talvez estejam dormindo por lá.

No sono, todos acabam por mostrar seus caninos, pré-molares e molares. Alguns com máscaras a garantir certa escuridão durante o ato de dormir. Em público. Por vezes, um pouco… Úmido, na bochecha?

O horizonte, de cima, é tão mais longe, infinitamente distante, abstrato. Onde terminará o céu? Onde começará a terra?

Essa altitude, esse som de nada – ou de turbina no nada atmosférico – canção de ninar para ouvidos livres das ecléticas seleções de rádio e TV do contexto mais sólido que é. O chão.

Então vem o cochilo.

…………………………………………………………………………………………………………

Até o comandante nos assustar.

Calma! Era apenas um aviso – se entendi bem – de proximidade do aeroporto.

E assim, vamos para a última etapa.

Será que as malas vieram? 

Este texto foi publicado na Revista Rio Total.

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