Ele foi enganado. Acreditou que, para onde era levado, havia emprego. Pensou na família, pensou no futuro, só não pensou ser mentira o que os homens lhe contaram.

Aliciar, do latim: allicio, -ere — atrair, seduzir, levar a, subornar.

Por livre e espontânea vontade, ele entrou no carro, jantou com seus algozes, porque pensava serem eles amigos, e amanheceu em uma cela, acorrentado.

Sequestrar, do latim: sequestro, -are, — afastar, subtrair de, encerrar ou enclausurar alguém ilegalmente, tomar com violência, pôr de parte, pôr em sequestro.

Ele insistia que era livre, que tinha esposa e filhos e que deveria ter havido algum engano. O que ele não sabia era que o único enganado ali era ele mesmo.

Enganar, empregar enganos, seduzir, pregar uma peça, iludir-se.

Aliciado, sequestrado, enganado, ele acreditou no homem e como recompensa, teve sua roupa rasgada até que o tecido abrisse caminho para que o couro lacerasse sua pele e os gritos de terror rompessem sua garganta em negação até que a dor convertesse o grito na mais oprimida afirmação de quem ele não era.

Tortura, do latim: tortura, -ae — qualidade de o que é torto, tortuoso; grande sofrimento físico; suplício; angústia; situação difícil.
Torturar, submeter à tortura; atormentar moralmente.

Com a palavra a dizer o que ele não queria dizer e a esconder o que ele sonhava em falar, foi vendido como objeto, transportado como ferramenta, guardado como animal. No lombo, carregou chibatas, correntes, troncos.

Escravidão, estado de escravo; cativeiro; servidão; sujeição; falta de liberdade.

Até que um dia, depois de várias vezes iludido, conseguiu ajuda.

Essa é a história de Solomon Northup, homem, negro, nascido livre, em julho de 1808, em  Nova Iorque e, acredita-se, morto em 1863. Era fazendeiro, proprietário de terra e violinista, pai de três filhos e casado com Anne Hampton. Aos 33 anos, ele teve a liberdade roubada.

Mas essa é também a história de tantos outros seres humanos que, como Solomon, são sequestrados, torturados e forçados a trabalhar.

A história de Solomon aconteceu no século XIX.
Mas esse enredo, no século XXI, ainda é história.

“Entenda o tráfico de pessoas:
O tráfico de pessoas é o recrutamento, o transporte, a transferência, o alojamento ou o acolhimento de pessoas, recorrendo à ameaça ou ao uso da força ou outras formas de coação, ao rapto, à fraude, ao engano, ao abuso de autoridade ou à situação de vulnerabilidade ou à entrega ou aceitação de pagamentos ou benefícios para obter o consentimento de uma pessoa que tenha autoridade sobre outra para fins de exploração.” (http://portal.mj.gov.br/data/Pages/MJ16B51547PTBRNN.htm, acessado em 7 de março de 2014)

Se Solomon, Luísa Mahin, Chica da Silva, Zumbi e tantos outros de quem nem sabemos o nome foram vendidos para trabalhar na agricultura, na mineração, em casas de brancos, ou em qualquer outro lugar onde mão de obra fosse necessária, hoje, em todo o mundo, 12,3 milhões de seres humanos são vítimas de trabalho forçado e 2,4 milhões são traficadas. Pessoas são abduzidas e vendidas para exercerem funções diversas, sendo que 43% são traficadas para exploração sexual — das quais 98% são mulheres — , 32% são usadas para exploração econômica e 25% para razões indeterminadas ou para ambas as anteriores. Na América Latina e Caribe, 56% das pessoas traficadas são do sexo feminino e 44%, do sexo masculino, sendo que 45% são crianças.

Discute-se o conceito de escravidão e alguns argumentam a favor do uso de outros termos, por exemplo trabalho forçado, para descrever a situação de milhões de pessoas no mundo; ou adota-se o adjetivo “contemporânea”, versus o adjetivo “histórica”, este para se referir à escravidão outrora legal. A principal diferença está justamente na lei, já que até o final do século XIX ainda havia país (o nosso) onde essa aberração era permitida. Outra diferença está no tempo de trabalho. Na escravidão histórica, as pessoas eram sujeitadas a longos períodos de submissão, enquanto atualmente, as vítimas são consideradas “descartáveis”, isto é, ao final do trabalho, quando não mais são necessárias, são “liberadas” e nenhum sustento é provido. A principal semelhança entre ambas as “modalidades” de escravidão está na forma como ocorrem e são mantidas: sob ameaças, violência física e psicológica, punição exemplar e assassinato.

pelo fim do tráfico de pessoas e pelo direito de ser humano
pelo fim do tráfico de pessoas e pelo direito de ser humano

A situação é complexa e exige medidas de todos que possam ajudar para que seres humanos não percam o direito de gozar do que prevê os trinta artigos daquela declaração universal de todos nós. Portanto, independente do termo empregado, se você estiver no Brasil e souber de algum caso que viole esses direitos, não perca tempo e faça sua parte: denuncie. Disque 100.

Todo mundo tem direito de ser e de estar humano. Sempre.

Vídeo — Lisa Kristine: Photos that bear witness to modern slavery – in: TED

Onde encontrar mais informação:
Ministério da Justiça: http://www.justica.gov.br/portal/ministerio-da-justica.htm
Secretaria de Direitos Humanos: http://www.sdh.gov.br/disque100/ouvidoria-disque-100
OIT — Escritório no Brasil: http://www.oit.org.br/
JusBrasil: http://www.jusbrasil.com.br/bem-vindo?ref=logo
As definições foram retiradas do dicionário online Priberam: http://www.priberam.pt
Filme: 12 anos de escravidão, 2013, direção de Steve McQueen, roteiro adaptado de John Ridley, história original de Solomon Northup, 134 min.

Este texto foi publicado na Revista Eletrônica Rio Total e Coojornal.

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