Para Sra. Glaucia Brasil Libânio

(15/11/1920 | ✝03/10/2012)

 Nem sempre acordamos com boas notícias, a vida é assim. Mas não quero fazer deste um momento de tristeza. Quero falar de amor.

Glaucia, ou vovó Glaucia, foi uma belíssima mulher que nasceu em 15 de novembro de 1920 e viveu até seus 92 anos.

Conservadora, ela sempre me aconselhou acerca do comportamento que deve ter uma mulher. Do corte de cabelo, das sobrancelhas aparadas, das roupas femininas, mas, sobretudo, de como devemos agir, no casamento, na família, na sociedade. Para vovó, uma mulher deve ser dedicada aos pais, ao marido e aos filhos, e deve ter seus segredos e mistérios.

Eu, pessoa nada conservadora que sou, nem sempre concordei com D. Glaucia e ao pisar a sala de seu apartamento, fazia-o com a certeza de que sairia dali com mais uma sugestão para meu visual, ou mais um conselho para a vida. Mas vovó Gláucia me entendia. Nós nos entendíamos.

Certa vez me olhou e foi bastante séria:

— Ana Luiza, quando você receber um dinheirinho, compre óculos novos, você está muito feia com esses. Escolha uns que sejam maiores. Vai ficar bonito.

— Oh, vó! Mas eu gosto destes.

— Mas eles não te caem bem.

— Mas eu te amo, vó. Mesmo você dizendo que estou feia.

Nós duas rimos. Eu por saber que seu amor era assim mesmo; e ela por saber que sou mesmo “uma danada”.

Desta forma convivíamos: ela sugeria, eu não acatava, e então ríamos juntas. Mas nem sempre, vó…

Acatei seu amor, sua fé.

Nos idos de 1989, vovó me deu minha primeira bíblia, para ela “a palavra de Deus, portanto a verdade”. Pediu-me que meditasse diariamente e assinou: “com muito amor, vovó Glaucia”.

Assim eu fiz.

Nesses anos de meditação diária, uma das coisas que aprendi foi que o verdadeiro valor da vida está no amor que recebemos, porque ele é reflexo daquele que doamos e, portanto, revela quem somos. E o amor que dei a essa pessoa hoje tenho guardado na forma do amor dado por ela em todos seus conselhos, em todas as vezes que me pediu para deixar os cabelos crescerem e em todas as vezes que se preocupou com minha feminilidade.

E a fé que tenho, é a de acreditar que agora ela viverá a eternidade.

Mas não sou de pensar em uma eternidade distante, um paraíso longínquo, ou coisa parecida. Sou de acreditar que minha avó estará viva, para mim, eternamente enquanto eu dure. Porque o amor é assim, ele mantém as pessoas vivas, perto, dentro de nós. O amor mesmo permanece vivo, ativo, depois da morte; e todas suas ações serão lembradas por aqueles que as receberam. O corpo morre, as palavras cessam, o dinheiro é fugaz, ou, nas palavras de José de Alencar, em Iracema: “Tudo passa sobre a terra”. Mas “o amor jamais acaba” (Coríntios, 13:8). E o que me consola em minha angústia é isso.

“Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, esses três: porém, o maior desses é o amor.” 1 Coríntios, 13:13.

Obrigada, vó, por todo o amor que nos deu.

Bye, bye.

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