Para matar a saudade

Admiram-me os vários cineastas que, por todo o mundo, criam poesia em imagens. Cenas-poemas despertam-nos sentimentos de toda sorte: alegria, tristeza, raiva. De todos, talvez a nostalgia seja o mais impressionante. Como pode alguém que mal conheço, por meio de imagens que jamais vi, despertar em mim saudade de algo que nunca vivi?

Dia desses acordei com os “versos” de Chaplin na memória. Despertei com vontade de reviver “As luzes da cidade”, de me emocionar com a florista cega e com o carinho entre ela e o Vagabundo.

A ingenuidade de Carlitos leva-nos de volta a um tempo em que estranhos conversavam amenidades, perguntavam nomes, trocavam apertos de mãos. Obviamente não vivi o tempo daquele famoso chapéu que, com a bengala e o andar “dez para as duas”, nas comédias românticas mudas, fazia espectadores rir para logo em seguida chorar a emoção presa no peito. Mas no meu tempo, ainda éramos ingênuos como Charles Chaplin.

Cheia dessa saudade tão subjetiva, segui alguns dias com aquele bigode em mente e a pulga atrás da orelha. Perguntei-me, várias vezes, porque me sentia saudosa. Até encontrar, na banca de revista, a resposta.

No intervalo entre levar e buscar minha filha, Carlitos mais uma vez se acendeu em minha lembrança-saudade com seu caminhar pela cidade e olhar inocente, enquanto eu andava pela avenida Contorno a solucionar entediantes questões do dia a dia: banco, correios, alimentação. Fiz questão de inserir nos afazeres uma pausa na banca para verificar as novidades do mês. O jovem proprietário, há dois meses no comando do empreendimento, concluiu, cheio de elogios e seguindo a linha “Diga-me a revista que queres que te direi quem és”, meu nível de inteligência e interesse por livros. Não demorou, descobri que ele é poeta e logo me vi com um de seus livros nas mãos, devidamente autografado para ser aproveitado “em momentos de silêncio”.

Ganhei presente e elogios de alguém que eu não conhecia.

Segui minha jornada rumo à praça. Bornal a tiracolo, agora carregava mais um livro. Sentei-me ao sol para garantir a absorção de minha dose diária de vitamina D, abri o livro do jovem poeta-dono-de-banca e comecei a decifrar o mistério da nostalgia do não vivido.

Ele também “cresceu vendo os filmes de Chaplin”, revelou uma das orelhas. Ele escreve a nostalgia, “do grego nostos, passado, e algia, dor”, disse a outra orelha. E enquanto eu mergulhava nos versos do estranho-conhecido, uma senhora me abordou, interrompeu minha leitura: “Pena que a paisagem não contribui com ar mais bucólico para o cenário de sua leitura, mas ainda assim está agradável, não?”. Minha mais nova conhecida juntou-se a mim, por alguns minutos, em devaneios amigáveis.

Alguns poemas depois, ouvi meu nome, agora pronunciado por uma voz feminina familiar. E como sempre é bom rever parentes, depois de compartilharmos desejos e esperanças em comum, troquei um abraço sincero com a prima antes de ela partir.

Outros poemas, outra interrupção e mais um elogio, dessa vez, aos meus cabelos.

O tempo passou.

Fechei o livro.

Segui meu roteiro.

Nostálgica, senti o aroma da rosa que Carlitos compra da florista cega. Enxerguei que somos como as pétalas, juntos compomos histórias conectadas em um mesmo caule-tempo. Entendi que basta abrirmos os sentidos para sentir a nostalgia daquilo que vivemos, todos juntos, em um “uni-verso” a distribuir poesia para quem quer que esteja preparado para se emocionar.  O segredo se revela no sentimento.

Ainda perguntam-se nomes, apertam-se as mãos e distribuem-se delicadezas, basta estarmos atentos, ou distraídos, não sei. Diante da saudade, talvez nos baste sair por aí, como um Carlitos, a conversar e a sorrir, sem pretensões, apenas para conectar e assim reviver histórias, partes integrantes da flor-vida.

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