O que vemos muda

— ou reforça —

quem somos.

Não há como sairmos ilesos.

Por isso, às vezes

é tão difícil olhar

em determinadas direções.

— Ana Luiza Libânio

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Muitas mulheres.

Idades variadas.

Mães, esposas, namoradas, filhas,

seres humanos.

Estou cansada. O dia foi longo.

Acabei de chegar em casa. Quero sentar, esticar as pernas e comer algo bem gostoso, depois de um bom banho morno.

Às vezes fico imaginando se todo trabalhador é assim: acorda cedo, apronta, toma café-da-manhã, enfrenta o transporte público — ou o trânsito, quando está de carro — chega ao trabalho, se prepara para o dia e começa a receber seus clientes.

Eu trabalho horário integral, e tenho que atender uma média de 30 a 50 pessoas. Tenho que atender bem!

Eu me pergunto se na mente de toda pessoa de negócio — como é que fala? Biziness pipol? — passa aquela frase “o cliente sempre tem razão”.

Eu não tenho patrão, sou autônoma. Se isso é bom? Olha, não sou explorada. Já dá para achar bom, mas quem tem carteira de trabalho assinada, carimbada e rotulada tem também vale-transporte, décimo terceiro salário, fundo de garantia, aposentadoria. Apesar de poder fazer meu trabalho onde e como quiser, e atender a quem preferir, não acho bom não ter os direitos que todo trabalhador tem. Além do mais, ninguém me vê como profissional, né? O que eu faço é assim… Um bico.

Hoje fiquei cansada. O movimento foi grande. Sempre é movimentado aqui.

O que mais me incomoda? O fato de meu trabalho não ser visto como profissão; não tem valor. Sabe quando perguntam assim: “você trabalha também”? É isso. Eu tenho uma rotina que garante meu sustento e ainda me perguntam se eu trabalho. Olhe, não estou dizendo para você gostar do que eu faço, mas eu sou cidadã como você. E aposto que tem muita profissão por aí que você não gosta, mas nem por isso desrespeita quem está nessa área.

Quantas pessoas? Olha, tem pra lá de mil. Acho que já ouvi dizer umas quatro mil. Sério! Mas essas são as pessoas cadastradas. E é bom a gente cadastrar. Ficadica! A associação está no térreo do prédio onde trabalho. Preenchi ficha, conversei com o pessoal. Agora sou uma profissional de classe!

E por falar em classe, olha como é bom ter gente que se importa: a associação está organizando curso de língua estrangeira pra gente. Vamos poder escolher estudar inglês, espanhol, francês ou italiano. Ou tudo, se quiser! Vira e mexe eles arrumam uns cursos pra gente. E dão o maior apoio. União é tudo, amiga! Se você se sente sozinha, olha pro lado e vê que tem umas milhares de pessoas com você… Caramba! Isso é muito bom, porque às vezes a gente se sente sozinha. Todo mundo, né?

Verdade, tem muito preconceito. Mas vou te dizer uma coisa: Eu não tenho vergonha. Sabe por quê? Não estou envolvida em crime, não mexo com drogas, nem engano as pessoas. Não faço mal a ninguém.

Se tenho colegas assim? Você quer dizer, pessoas envolvidas em negócios fora da lei, que arrumam esquemas e que só pensam no dinheiro? Claro. Você também não tem? Quem não tem? Sabe, pessoas de má índole e que se envolvem em crimes e que passam os outros pra trás estão espalhadas em todas as classes sociais. Vai lá em Brasília!

Tenho uma profissão como outra qualquer. Às vezes gosto de meu cliente, às vezes não, mas sou profissional e atendo quem me procura.

Hoje cansei demais. Vou aproveitar essa conversa, aproveitar que já parei e ir embora pra casa.

Uma última mensagem? Independente de minha profissão, sou mulher, sou ser humano.

Sim. Eu sou prostituta.

Este texto é resultado de conversas com prostitutas em

Belo Horizonte, MG

durante trabalho voluntário desenvolvido junto a APROSMIG

(Associação das Prostitutas de Minas Gerais).

*Texto publicado na revista eletrônica Rio Total.

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