O milagre

Na rodoviária de certa cidade histórica, de manhã, o inconfundível barulho de ônibus anuncia a chegada de, pelo menos, oitenta turistas. Dentre eles, poucos sabem, está Marialva, uma jovem mulher de cinquenta anos que desce do veículo com ajuda do trocador e segue seu caminho. Sozinha.

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foto por Ana Luiza Libânio

Ela traz um pacote cilíndrico. Aproximadamente um metro enrolado em papel pardo descansa debaixo do braço de Marialva.

Ela, mesmo com dificuldade, não para de andar.

Marialva, manca, com um pacote debaixo do braço, tenta tirar a mochila das costas. Impossível lidar com pacote, mochila e ainda por cima mancar.

Ela para, coloca o pacote no chão encostado à perna que manca. Sente-se ameaçada pela aproximação de um homem: um não tão jovem quanto ela, senhor de, aproximadamente, setenta anos.

— Precisa de ajuda, moça?

— Não.

— Está com cara de perdida. Não precisa ficar tímida. Estou aqui para ajudar.

— Você é guia?

— De uma forma ou de outra…

— Não estou perdida.

— Mas se precisar…

— Obrigada.

— O que tem nesse pacote?

— Não toque nisto!

— Calma… Só quero ajudar.

— Preciso ir.

Marialva salva o pacote das mãos intrusas do homem e segue, apressada.

Ela, coxa, trazendo o pacote debaixo do braço, acelerada, resolve parar na esquina. Precisa dos óculos escuros que estão na mochila.

Coloca o pacote encostado à perna que manca, tira a mochila das costas, resgata os óculos e os coloca no rosto.

Ela olha para trás. Ele insiste:

— Ei! Tem certeza que não precisa de ajuda? Posso indicar o caminho. Sou bom nisso.

— Não precisa. Obrigada.

Era noite e Marialva arrumava sua mochila. No canto do quarto, Hermengarda, com seus cabelos brancos presos em um coque, xale sobre os ombros e bengala no colo carregava seus noventa anos no vai e vem da cadeira de balanço.

— Minha filha, tome muito cuidado com essa perna. Mas principalmente, cuide para não ser enganada pelo demônio. Ele não vai querer que você cumpra a promessa.

— Fique tranquila, vó.

— Que a Santíssima Trindade te proteja. Vou dormir.

A avó de Marialva deixou um pacote cilíndrico ao lado da cadeira que passou a balançar sua ausência.

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foto por Ana Luiza Libânio

Marialva, manca, com um pacote debaixo dos braços, mochila nas costas e óculos escuros no rosto sobe uma ladeira. Agora está cansada e ofegante. Sonha com uma massagem na perna, aquela que, por vezes, apoiou o pacote cilíndrico.

Respira fundo, olha para o alto, faz o pelo sinal.

Sobe a ladeira.

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foto por Ana Luiza Libânio

Mas ela se detém. A voz é daquele homem.

— Menina! Olhe você aqui! Que bom… Deixa que eu levo o pacote.

— Não precisa.

— Pare com isso. Está na cara, e na perna, que você está cansada.

— Para! Você não vai me enganar.

Ela segue seu caminho até o alto do morro. Marialva, coxa, com um pacote debaixo do braço, mochila nas costas, óculos no rosto e a coragem que lhe transborda, passa ao lado da igreja e para diante de uma porta.

“Sala dos milagres” diz a placa.

Ela esfrega a perna.

Entra.

Marialva sairá da sala e aquele homem já não a incomodará. Ela ainda será coxa, e carregará a mochila nas costas. Provavelmente, seus óculos estarão guardados. Mas debaixo do braço, não haverá pacote.

Lá, no canto da sala dos milagres, estarão, então, uma perna e uma foto de Marialva.

Esta crônica foi publicada na revista Rio Total.

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