“e o verbo se fez carne” João 1:14

Do verbo à carne

da carne ao corpo.

Do corpo ao discurso

do discurso ao ativismo.

Do ativismo ao feminismo

do feminismo à nossa vida.

 

O que é, agora, a nossa vida?

 

Desde o começo, o verbo tem gênero. Deus é homem e o paraíso, um lugar perdido, porque a mulher não se comportou bem.

Deus é justo. No entanto, quando o verbo se fez carne, a mulher não pôde votar, ir à escola, se eleger a cargos públicos, praticar esportes, fumar, vestir calças, dirigir, publicar seus escritos — nelas, o verbo foi calado.

Pelo homem.

Ser mulher era: 

  1. Ser esposa.
  2. Ser mãe.
  3. Ser dona de casa.
  4. Todas as alternativas ao mesmo tempo.
  5. N.D.A

E então veio a luta contra o “poder” do falo (do latim: phallus).

Elas resolveram falar. As mulheres fizeram do verbo a sua carne. No corpo feminino, então, encontrou-se o poder da fala (do verbo falar: exprimir o pensamento pela palavra).

No iluminismo.

Foi no século XVIII que a humanidade decidiu: a razão seria o foco de estudos como filosofia, política, sociologia e ciências. Em Londres, 1787, Mary Wollstonecraft (1759-1797) publicou um livro em que argumentava a favor da capacidade da mulher de ser racional e intelectual: Thoughts on the Education of Daughters (Pensamentos sobre a educação das filhas). A obra foi resultado de seu trabalho como professora de escola e de sua convicção de que as mulheres são socialmente treinadas para serem subordinadas ao homem. Depois da publicação de mais alguns textos filosóficos, Wollstonecraft defendeu igualdade de direitos e oportunidades, no livro intitulado A Vindication of the Rights of Woman (A reivindicação dos direitos da mulher), de 1792. Esta é considerada a primeira publicação feminista da história. Wollstonecraft argumentou que o amor romântico, assim como o desejo carnal são meios de escravização e os homens são os “senhores”.

[Pessoas de] meu próprio sexo, espero, me perdoarão se eu as tratar como criaturas racionais em vez de bajular sua encantadora graça e vê-las como se vivessem uma eterna infância, incapazes de ficar em pé por conta própria. — Mary Wollstonecraft

No Brasil, a primeira lei que aborda a educação da mulher foi escrita em 1827 e permitiu que elas frequentassem escola primária. Mas a educação de nível superior era proibida. Assim foi por mais 52 anos até que as mulheres pudessem se matricular na universidade. Pena que a pressão social era suficiente para deixar a maioria longe dos estudos. Afinal de contas, quem se responsabilizaria pelos serviços da casa? O marido? As crianças?

Em 8 de março, de 1857, em Nova Iorque, Estados Unidos, mulheres se manifestaram contra a longa jornada nas fábricas têxteis — elas propunham diminuir de 14 para 10 horas — e a favor da licença maternidade. A polícia entrou em ação. 129 mulheres morreram. O dia passou a ser, internacionalmente, delas.

Em 1887, o Brasil teve sua primeira médicA, Rita Lobato. 30 anos depois, Deolinda Daltro liderou o movimento pelo sufrágio feminino, além de ser fundadora do Partido Republicano Feminino. Mas somente em 1932 foi garantido às mulheres o direito de votar.

Simone de Beauvoir (1908-1986) publicou a obra Le Deuxième Sexe (O segundo sexo), em 1949, em que expôs, a partir da literatura, da história, da biologia e da filosofia, fatos e mitos acerca da vida da mulher.

Um dia eu quis explicar quem eu sou… Fiquei surpresa quando a primeira coisa que eu tinha a dizer era ‘Sou uma

Simone de Beauvoir - fonte: http://www.feministezine.com
Simone de Beauvoir – fonte: http://www.feministezine.com

mulher’. — Simone de Beauvoir

 Ah! As mulheres!

E continuamos a iluminar o mundo com nosso conhecimento, coragem, força. Somos mulheres escritoras, artistas, atrizes, professoras, profissionais de diferentes ramos, motoristas de caminhão, de ônibus, somos bombeiras hidráulicas, bombeiras elétricas, bombeiras. Somos comandantes. Somos presidentas.

Mulheres não são culpadas, não são pecadoras e também não são o “sexo frágil”. Somos competentes e não merecemos aprisionamento social. Como homens e mulheres compartilham da mesma sociedade, é justo que as oportunidades também sejam as mesmas.

Este texto foi publicado na Revista Rio Total. 

Anúncios