Jonatas e a promessa

Ele é um sujeito moreno, forte e alegre. Está pronto para o que der e vier. Hoje foi executar mais um serviço.

Jonatas é um cara legal. Jamais fez mal a alguém.

“Há muito tempo trabalho em cima da moto. Tenho medo não. Quer dizer, já tive. Quando levei tiro. Foram três. Não. Você nem imagina… Fui quebrar o galho pra minha prima e deu nisso ó. Essa marca aqui, tá vendo? Entrou pelas costas saiu cá na frente. Foi o primeiro. Caí na hora. Depois vieram dois. Ainda bem que de longe. Fosse de perto tava morto e enterrado. Nem vi. Sei lá. Depois de muito tempo fiquei sabendo que os caras pensaram que eu era outra pessoa. É que o motoqueiro da farmácia da minha prima pediu pra sair, ela me chamou e eu aceitei. Dois dias depois foi isso. Três tiros. Arde demais. Arde e depois queima e você acha que vai morrer e não dá conta de nada, não vê nada. Só vi as pernas de um deles. Tinha tatuagem. Um era assim… Moreno. Mais que eu. O outro era mais branco. Na verdade nem sei direito. Se pegaram os caras ou não, sei lá. Quero mais é que Deus dê a eles um bom caminho. Desejo sempre o bem, assim o mal fica longe de mim.”

Jonatas é um cara esforçado. Ele confia no seu taco.

“Eu faço qualquer coisa. Já fiz de tudo que você pode imaginar. Quer dizer… Quase tudo! Ó procê ver: nunca tinha trabalhado com instalação de rede. Resolvi experimentar. Gostei. Tô nisso já deu uns seis meses. Ah, já tô bom! Umas quatro instalações por dia. O mercado é bom. O pessoal lá ganha bem. Tem vez que fica parado, mas qualquer negócio é assim. Nada! Eu sempre tive aflição de ficar nas alturas. Mas a gente acostuma, hoje até me jogo na rede pra testar. Se eu não confiar no meu trabalho quem vai, né?”

IMG_0875Jonatas é motoqueiro. Não lamenta seus tombos.

“Já caí muito. Ralei todo. Olha aqui. Eu tava na garupa, o cara foi passar entre dois carros um resolveu ir pro lado. Eu vi que não ia dar tempo e ainda bem que tenho muitos anos de moto e já saquei que a gente ia cair. Pulei. Pulei longe. Mas ainda assim ralei o braço. Mas meu colega ralou foi tudo. Foi bunda, perna, os dois braços. Foi horrível mesmo. Dói pra caramba! E pra dormir? A coberta gruda na gente. Nem dá pra colocar curativo que gruda tudo. Sei lá o que é pior: o curativo grudar ou a coberta. Mas foram muitos tombos. Ah! Eu tenho vergonha não. E quando vejo motoqueiro no chão logo dô ajuda. Os cara precisam. Ninguém respeita a gente não! E de mais a mais, quem nunca caiu? A vida é assim mesmo, um cai e levanta danado.”

Jonatas é ambicioso. Não vai deixar os sonhos morrerem.

“Mas não vou ficar aqui parado não. Tá, é legal, mas eu quero é estudar mecânica. Vou ser mecânico. Vou fazer curso. Fiz até a oitava série. Agora é o nono ano, né? Pois é. Isso aí é uma boa ideia. Um curso técnico que vale de ensino médio? Puxa! Uma grande oportunidade. Olha, nunca tive ninguém pra me dá coragem de estudar. Se precisava de dinheiro em casa, eu tinha que trabalhar, porque estudar é coisa de quem tem dinheiro. E as escolas meio bagunçadas também não serviam pra muita coisa. Agora, tudo que eu quero é ter oportunidade pra crescer. Mas vou te dizer que nada me impede, porque eu sou dono de meus sonhos e se eu quiser, faço tudo acontecer.”

Jonatas tem medo de altura. Mas quer ir cada vez mais alto.

“Pois é. Nunca nem tive coragem de subir nas janelas. Mas sabe como é, né? Surgiu a oportunidade a gente tem que tentar. Hoje tô aqui, ó. Subo em tudo que é janela. Até no vigésimo segundo andar já fui, mas ainda vou mais. Ah! Essa é boa. Como é? O céu é o limite? Isso aí. Vou cada vez mais alto. Porque pra mim, cada andar que subo significa que melhorei na vida. E a gente foi feito pra ir pra frente, pra cima, pra sempre melhorar. E não olhar pra baixo.”

Jonatas é maluco. Mata a cobra e mostra o pau!

“Olha só, essa rede segura até 180 quilos. Tá vendo? Posso até tirar um cochilo nessa posição aqui, ó! Ah! Ficou com medo de eu cair?! Cai não! Eu te disse: confio no meu trabalho.”

Vai com Deus e juízo nessa moto, Jonatas! Ah! E vai estudar.

“‘Pódexá’! Prometo que a próxima vez que a gente encontrar vai ser pra consertar seu carro. Escreve o que eu tô te dizendo!”

Esta crônica foi publicada na revista Rio Total.

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