Feministas concordam: elimine o pensamento androcêntrico e o essencialismo biológico e restará a polarização de gêneros, isto é, a onipresente organização da vida social em torno da dicotomia masculino/feminino. A vida social está tão conectada a essa distinção que, virtualmente, todos os âmbitos da vivência humana perpassam a relação dos gêneros, não somente o modo de vestir e os papéis sociais, mas também as formas de expressão, os desejos e as emoções. (Bem, 1993).

O que significa igualdade entre mulher e homem?

Afinal, é possível construir uma sociedade igualitária?

No final de julho, li duas matérias que me chamaram atenção. A primeira citava o blog de uma atleta de levantamento de peso, mais especificamente, falava de um post em que ela responde a um tuíte enviado por certo homem que não gostou dos músculos da garota. Segundo o sujeito, ela não é feminina e garotas não devem ter músculos; para ele, isso está errado.

A segunda matéria, Democracia e Desigualdade: Mulheres no STF da revista Carta Maior, fala da possibilidade de a presidenta Dilma Rousseff diminuir a desigualdade de gênero no poder judiciário, já que com a aposentadoria de dois ministros ela pode indicar mulheres para o cargo. O artigo cita, ainda, alguns números alarmantes: dos 513 deputados, apenas 45 são mulheres; no Senado Federal temos 9 senadoras para 72 senadores homens; dentre os 38 Ministros dos Ministérios brasileiros, apenas 10 são mulheres e dentre seus vice-ministros, apenas 7 são mulheres; dos 2400 cargos de alta chefia nos ministérios, apenas 700 são ocupados por mulheres; dentre as 120 empresas estatais do nosso país, apenas 3 são chefiadas por mulheres; são 11 os ministros do STF (Supremo Tribunal Federal), 9 homens, 2 mulheres, sendo que a primeira a ser escolhida para integrar o STF foi a Ministra Ellen Gracie, em 2000; no STJ (Superior Tribunal de Justiça), no TST (Tribunal Superior do Trabalho) e no STM (Superior Tribunal Militar) há, no total, 71 Ministros, somente 11 são mulheres.

Dos brasileiros, 51% são mulheres, ou seja, a maioria; no entanto, os homens dominam. “As mulheres recebem remuneração menor por trabalho igual; as mulheres ocupam menor percentual de cargos de chefia nas empresas; as mulheres são, com muito maior frequência, vítimas de violência doméstica e de violência sexual; as mulheres chefiam a maioria das famílias uniparentais. Embora uma mulher ocupe, pela primeira, vez a Presidência da República, as mulheres estão espantosamente sub-representadas nos cargos mais elevados dos Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário.” (Guimarães, 2012)

Para mim, isso está errado.

Se vamos discutir essas questões de gênero, precisamos primeiro, e inevitavelmente, lembrar a grande Simone de Beauvoir e sua definição da mulher na sociedade, em seu livro O Segundo Sexo: “Ela é o outro” em relação ao homem. Enquanto os homens são absolutos, as mulheres são rotuladas como diferentes, fracas. Ademais, é fácil definir o que são as mulheres; elas são útero e ovários. Enquanto os homens são orgulhosos de serem chamados de machos, o rótulo “feminina” é pejorativo, ele aprisiona a mulher em seu sexo e as mulheres não querem estar presas a isso, já que não são valorizadas como Um, mas sim, como Outro. Para Beauvoir, não se nasce mulher, torna-se mulher. A supremacia masculina está arraigada na sociedade. Os músculos, por exemplo, pertencem aos homens.

Para Judith Baer, é provável que a maioria das sociedades viva essa supremacia expressa no patriarcado, isto é, sociedade em que o homem exerce autoridade (Baer, 1996). Consequentemente, o homem tem poder para determinar o futuro de uma organização social. Ora, o domínio do masculino, por ser “quase universal”, conforme argumenta Baer, é compreendido como natural, assim como o poder do homem. No entanto, há apenas uma diferença natural entre “fêmeas” e “machos”: a capacidade reprodutiva.

Acreditar que pode haver igualdade entre os sexos, é compreender que, apesar das diferenças naturais na capacidade reprodutiva, mulheres e homens são iguais na sociedade. Mais ainda, é o entendimento de que seres humanos são naturalmente iguais e que qualquer diferença é resultado de construção social e, portanto, pode sempre ser reconstruída. Igualdade entre os sexos significa justiça e oportunidades iguais para todos, independente da natureza do corpo de cada um.

Isso é democracia. Isso é certo.

Bibliografia:

Baer, Judith A. Women in American Law. New York: Holmes & Meier, 1996.

Bem, Sandra Lipsitz. The Lenses of Gender: Transforming the Debate on Sexual Inequality. New Haven: Yale UP, 1993.

De Beauvoir. The Second Sex. New York: Vintage Books, 1989.

Guimarães, Samuel Pinheiro. Carta Maior. In: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=20617&boletim_id=1298&componente_id=21228 [acessado em 26/07/2012]

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