Colocou o último LP na vitrola — “last play”.

Serviu-se da última dose de seu scotch — o líquido âmbar deitou-se sobre as três últimas pedras de gelo.

Esvaziou o pacote de castanhas dentro do pirex.

Suspirou.

Sentou-se.

Concentrou-se na respiração como única forma de se manter um pouco calmo. Era o último recurso.

Um.

Dois.

Três.

….

…..

……

Mirou a estante e na última prateleira à direita lá estava ele, O último tango em Paris. Não hesitou. Depois de deslizar a fita para dentro do vídeo cassete, voltou para o sofá.

Na mão esquerda, Johnny; na direita, a silhueta de Marlon na caixa, a sua frente Maria entra no apartamento.

Na vitrola, Gato Barbieri.

Maria. Manteiga. Marlon e um tango.

Aquela seria a última vez, não assistiria filmes, nem apreciaria músicas, jamais se alimentaria.

 

Sozinho.

 

Ultimo Ricciardi e Elvira Silva convidam para celebrar sua união.

 

O aparelho de som, primeiro presente, foi colocado no canto da sala, ainda vazia. Logo os entregadores da loja de móveis chegariam.

Uma cama de casal era tudo o que precisavam para deslanchar. Depois viriam sofá, estantes, geladeira, fogão. Tudo novo.

Sentaram-se. Encostados à parede fitaram o equipamento.

Qual seria a primeira música?

A primeira refeição juntos?

O primeiro filme que assistiriam?

Agora a dois.

Teriam que compartilhar o banheiro, dividir os lençois e as contas.

Nas festas de fim de ano, duas famílias, duas ceias, muito mais parentes.

Dois Papais Noéis?

Teriam que (com)viver, a somar e a dividir.

Sempre para dois.

 

Mas não por muito tempo.

 

Na maternidade, Ultimo, em seu mais belo traje, segurava flores; na porta do quarto uma cegonha, em tinta guache, trazia no bico uma placa: Bem-vindo Rishon Silva Ricciardi.

 

Na mesa, três copos, três pratos, três guardanapos.

O tempo deles já não era o mesmo.

As contas multiplicadas e o sono subtraído somaram ao casal o cansaço que dividiriam por dois.

Ao mesmo tempo, potencializou-se a felicidade.

O primeiro passo, a primeira palavra, o primeiro dia de escola.

Então Ultimo, Elvira e Rishon viveram.

Viveram os três.

Assim.

Até que tudo mudasse, do último para o primeiro.

 

Esta crônica foi publicada na revista eletrônica Rio Total.

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