De médico e louco…

Todos temos um pouco. 

Sou capaz de apostar que você, assim como todos que nos rodeiam, ao menos uma vez na vida recebeu consulta gratuita durante uma festa, no caixa do supermercado, ou na fila do banco.

Enxaqueca? Conheço um remédio que é tiro e queda.

E quanto a loucuras, não há quem jamais as tivesse. Desde falar sozinho, a pular de Bungee Jumping, sei de uma variedade de comportamentos nada ortodoxos que incitam o levantamento unilateral da sobrancelha, acompanhado, ou não, de rugas na testa, daqueles que acompanham o desatino.

Longe de mim cometer insanidades. Quer dizer: talvez uma ou outra! Sei lá. 

E no Brasil, além de doutor e maluco, quase toda a população é técnico, ou técnica, de futebol. Sem falar nos advogados, que também são numerosos.

Há poucos dias, precisei ir a Savassi — para os que não conhecem Belo Horizonte, esse é um dos bairros acometidos pela falta de vagas nas ruas e pelos preços exorbitantes nos estacionamentos — por isso, tomei um ônibus.

Será que é loucura? Eu me diverti.

Estava vazio. Ainda assim, mesmo com tantos lugares, fui sentar na frente de um homem um tanto quanto nervoso, agitado, ansioso. O que tomei conhecimento poucos minutos depois de me acomodar.

Agora é tarde. Só me resta ouvir essa história e transformá-la em crônica. 

—Ei, estou te dizendo! A empresa descontou sem nem ter me avisado — a voz reverberou em meus tímpanos.

—Processa, cara! — o sujeito, do outro lado do ônibus, sentado com as costas contra a janela, gritou em resposta.

—Você tem uma advogada pra me indicar?

Toma Passiflora e relaxa.

—Cara, conheço uma doutora que nunca perde uma causa — ele respondeu enquanto olhava para o celular. — Anota aí.

Do fundo, outro sujeito lamentava a infelicidade do reclamante:

—Não pode ser assim. Tem que processar mesmo!

Foi aí que o passageiro, que se sentia vitima do sistema, da ex-esposa, e dos serviços jurídicos, compartilhou com mais uma pessoa, seu famigerado destino:

—Ela foi embora. Simplesmente isso. Pegou as coisas e saiu. Agora a empresa descontou uma grana no meu salário. Não posso. Nem pensar. Não dá pra pagar aquilo.

Ao que o novo integrante da discussão se manifestou:

—Conforme o artigo…é…olhe: essas pessoas não têm o direito de fazer isso com você.

—Pois é! Eu nem tava em casa pra receber intimação. Nem fiquei sabendo. Vou ganhar pelo menos uns…

Finalmente uma pausa. Ufa! Esses caras já estavam me dando nos nervos.

— Aqui! Fiz as contas. Vou ganhar uns quinze mil reais.

— Vai mesmo. Você foi julgado à revelia. Isso não pode.

Acho que pode sim, moço. Você precisa manter seus dados atualizados. Não atualizou, dançou.

Depois dessa revelação, o advogado plantonista de ônibus coletivo saltou — talvez fosse defender outro cliente alhures.

Só então ouvi uma voz feminina naquele ônibus tão masculino.

Pronto. Ouvindo vozes. Acho que Eu preciso tomar Passiflora.

—Querido, se controla — ela foi discreta.

—Vou me controlar como? — ele arquejava.

—Não sei, respira fundo — ela manteve-se suave.

Toma Passiflora.

—Oh, “motô”! Para aí pra nós? — depois da curva, no meio do quarteirão, vários metros depois do ponto, o homem bradou.

—Deus te abençoe! — a mulher gritou ao ver a porta traseira se abrir.

E assim o coletivo ficou silencioso. Só se ouvia o cantar de uma moça, na última fileira, acompanhado de leves palmas rítmicas.

Será que eu me encaixo nessa de também ter um pouco de loucura? Penso que não. Converso sozinha, danço e canto somente quando estou no trânsito — ou em casa.

Nem tampouco sou de ameaçar resolver problemas “nas barras dos tribunais”.

Mas todos precisamos conhecer nossos direitos, não?

Aliás, sabe qual é a diferença entre calúnia e difamação? Cuidado! Eu sei.

Uma coisa, definitivamente não sou: técnica de futebol. Mas eu concordo que escalar Ronaldinho Gaúcho para jogar na seleção brasileira é obrigatório — na mineira ele já é um sucesso.

E nada de ficar com os nervos à flor da pele. Não gostou de minha opinião, conte até dez. Se isso não resolver, conte as gotas de Passiflora, um santo remédio em caso de agitação nervosa.

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