Cuidado! A pedra no sapato, pode ser estelionato

às vezes, uma pedra no sapato
às vezes, uma pedra no sapato | foto por    Ana Luiza Libânio

Margarete, animada para mais um dia no melhor estilo Chico Buarque de fazer tudo igual, acordou às seis horas da manhã. Sorriu para seu reflexo no espelho, mas ele não devolveu a graça. Desconfiada, lavou o rosto e escovou os cabelos. Mas a sua imagem, ainda assim, não estava normal.

Beliscou-se.

Estava mesmo acordada.

Ignorou o espelho, buscou a ducha. É claro, conhecia bem sua preferência! Mas a torneira apenas respondia ao movimento da mão do contra e derramava o frio sobre Margarete.

—Esta não pode ser eu!

Um bom café, extra-forte, seria a solução. Mas a mão do contra, pouco pó quis colocar e o primeiro gole, da mesma forma que entrou, voou em retirada.

—Esta não pode ser eu!

Um remédio. Claro!

D. Etelvina, da farmácia, era ajuda garantida. Calçou os sapatos e, com certo incômodo, conseguiu chegar à esquina.

Conversa vai, conversa vem; um xarope aqui, um comprimido ali e a conclusão: com uma bela d’uma injeção, um pouco de descanso, tudo vai ficar bem.

E Margarete, que sempre foi destra, de repente viu sua mão do contra insistir em pagar a conta.

—Nada de cheques, por favor. Com esse garrancho o banco não vai creditar.

—Esta, definitivamente, não pode ser eu!

Cabisbaixa, sem saber segurar o choro, Margarete procurou mais ajuda.

Andou por ruas e vielas, subiu ladeiras, desceu serras, sentou-se em praças, andou em parques. Já não sabia mais o que fazer.

Pensou que tudo havia acabado.

E o pé, mesmo incomodado, levou às compras aquela chorona, outrora isenta dos desejos de consumo.

Margarete não entendia como seu reflexo podia estar sempre tão sorridente. Experimentou as mais brilhantes saias, os mais finos vestidos; comprou peles de primeira, e na sacola, os gadgets pareciam produtos de feira.

Depois de tantas cabines e vitrines, já enfadada, resolveu dar as compras por encerradas. Os pés, já inchados arrastaram a dona até uma poltrona. Com tantos itens comprados, Margarete suspirou mais uma vez:

—É claro, esta não pode ser eu!

Largou tudo e correu.

Mancava do pé direito, enquanto o esquerdo tentava andar pra trás.

Pediu socorro, implorou por compaixão, queria provar o roubo.

Mas foi tudo em vão.

No fim do dia, lembrou-se de uma crônica escrita no passado, tomou um gole de Passiflora, e procurou o delegado.

“Ah minha senhora, essa pedra no seu sapato, é sem dúvida estelionato.”

No final do depoimento, Margarete não demorou a se espreitar, na janela da delegacia, queria ver se conseguira se recuperar.

Já em casa, debaixo de uma ducha bem quente, depois de um gole de café, o largo sorriso se fez garantia:

—Esta, obviamente, sou eu!

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