Carta às entrevistadoras

Belo Horizonte, 10 de outubro de 2012.

Caríssimas Ana Flávia, Lívia e Sarah,

Foi um prazer ser entrevistada por vocês. Gostei de constatar que a juventude ainda está engajada e interessada pelas artes e cultura em geral. Vocês valorizam a oportunidade que recebem e isso é admirável. A realidade é que poucos chegaram — e poucos chegarão — onde vocês estão; terminar o ensino médio não é para a maioria, como devem saber. Sobretudo, com qualidade de ensino. Minutos antes de chegarem aqui, eu ajudava uma adolescente, a poucos meses da batalha para ingressar um curso superior, a estudar inglês e português. Ela vem de uma escola pública onde, para algumas matérias, não há professor. Vocês conseguem imaginá-la com os colegas fazendo palavras cruzadas, e outros “joguinhos” para passar o tempo? Passar o tempo! Quem tem tempo para isso, não é? Ela tem sonho, isso sim. Mas também tem medo de não poder realizá-lo. Quer estudar medicina.

E por falar em tempo, pena que nós não tivemos muito, teria sido bom continuar a conversa sobre cultura, literatura e arte. A entrevista acabou, vocês foram embora e eu fiquei com vontade de falar mais. Lembrei-me da pergunta acerca da literatura mineira e sua influência em minha vida. Como lhes disse, os escritores mineiros influenciaram e ainda influenciam meu trabalho, mas não pude citar todos. Por exemplo, não lhes contei do dia em que conheci Oswaldo França Júnior e que passei alguns meses “rabiscando” meus cadernos para tentar escrever como ele. Também não falei de Frei Betto que sempre me ilumina com seus textos, sejam as crônicas, os romances, ou os contos — vocês já leram “Batismo de sangue”, “Hotel Brasil”, “O vencedor”? Para Ana Flávia, interessada em política, não posso deixar de indicar “A mosca azul”. Faltou tempo para mencionar Autran Dourado, um importante romancista que faleceu dia 30 de setembro deste ano; seu romance “Uma vida em segredo” foi o primeiro que li na vida. E as mulheres, mineiras das letras? Não falamos nelas. Já leram Helena Morley, Conceição Evaristo? E a poesia de Adélia Prado, Henriqueta Lisboa e Maria Esther Maciel? Se leram, leiam mais, se ainda não, corram à livraria. E não deixem de dar uma espiada em Cacaso, grande “anti-poeta”.

Vocês me perguntaram se nossa cultura é desvalorizada e eu lhes disse que não, de forma alguma. Afinal, há como menosprezar esses maravilhosos artistas das letras? Sem falar em nosso teatro. Por certo conhecem o Grupo Galpão. Já ouviram falar no Grupo Espanca? E no teatro de bonecos Giramundo? Nosso cinema anda de vento em popa e temos excelentes festivais, por exemplo o de Tiradentes que terá, em 2013, sua 16a edição. Em nossa capital, meninas, temos ótimos centros culturais onde peças, filmes e eventos de diferentes tipos acontecem. Mas, precisamos de mais e que sejam acessíveis a toda a população. Isso preciso admitir.

Eventos culturais não são apenas diversão. Eles nos alimentam. E não é apenas mais um clichê, alimento para a alma, e coisa e tal. Conhecimento, levamos para todo lado; não importa onde esteja, lá está ele com você, e nem te faz pagar excesso de bagagem, portanto, quanto mais, melhor. No banco da praça, na escola, ou na academia, o saber não lhe fará mal algum. Ao contrário, ele abre portas.

Aliás, precisamos escancarar algumas passagens por aí. Movimentar mais esta capital, fazer acontecer. Proponho pensarmos mais sobre isso. Se estivermos todos juntos por uma sociedade com mais conhecimento, que valoriza a educação e a cultura, então poderemos ver mudanças.

Mas claro, queridas entrevistadoras, mudanças precisam acontecer “de dentro para fora”, como diz a sabedoria popular. É necessário desejar o conhecimento, é preciso querer ter educação, é importante valorizar o saber. Tanto dinheiro é desperdiçado com o que é material, com a imagem, portanto, com o efêmero. Muito do que é essencial é intangível e não perecível.

Nosso Brasil é terra de grandes talentos. Literatura, artes plásticas, música, cinema, digam aí qual arte e eu lhes direi um bom artista. O foco da pesquisa que fizeram foi Minas Gerais, então agora busquem a arte de outros estados. Vão à biblioteca, à livraria, ao sebo, aos museus, aos conservatórios. Pesquisem. Descobrirão que nosso mercado editorial, por exemplo, está em franco desenvolvimento. O mesmo digo para as outras artes; do norte ao sul do país há tanta beleza e tão distintas que não podemos deixar de apreciá-las e divulgá-las.

Obviamente não consegui resumir aqui o que é a arte mineira, muito menos a brasileira. Então, que tal continuarmos essa conversa com café e pão-de-queijo? Ainda há muito do que falar.

Um abraço, Ana Luiza

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