Aconteceu com a amiga da irmã de uma amiga da minha tia

A amiga da irmã de uma amiga da minha tia, uma jovem de quase quarenta anos, andava  acompanhada de sua filha adolescente pelas ruas de certa capital brasileira, após um agradável almoço no restaurante “Cantinho da Roça”, numa bela terça-feira do mês de outubro, quando um estranho a abordou.

Um estranho de aproximadamente vinte e oito anos saiu de casa para trabalhar, numa bela terça-feira do mês de outubro, no turno da tarde. Ele vestia uniforme cinza e abordou uma jovem de quase quarenta anos em uma rua de certa capital brasileira.

Enquanto ela andava na direção leste, ele seguia para o centro.

Depois do fortuito encontro, ele provavelmente a esqueceu, ela pediu que eu escrevesse esta história — não conseguirá esquecer o fato, este que durou, aproximadamente, dez segundos.

Há alguns aspectos que valem ser analisados, comecemos pelo estranho.

Um sujeito atravessou a rua sem se importar com a luz vermelha do sinal de pedestre, com o sorriso aberto e olhar de predador para quase esbarrar na filha da amiga da irmã de uma amiga da minha tia e proferir as palavras: “Minha sogra, sua filha é muito bonita”.

Aquela mulher tem mesmo uma filha bonita, mas daí a chamá-la de sogra, não tenho certeza se é pertinente. Afinal, para alguém se tornar sogra de outrem leva algum tempo de envolvimento e várias etapas devem ser vencidas. Portanto, meu caro, se quiser mesmo ser genro da amiga da irmã de uma amiga da minha tia, comece desde já a fazer por onde merecer esse título.

Falemos agora da filha.

O que é belo deve ser admirado, mas, sobretudo, respeitado. A garota ficou constrangida com aquela fala desrespeitosa. Não se elogia uma pessoa com olhos possessivos e palavras jocosas. Sobretudo, se o elogio é de um homem adulto direcionado a uma garota adolescente, menor de idade. Quem respeita mãe e filha sabe a hora e o tom certos para tecer elogios.

Vejamos a situação da amiga da irmã de uma amiga da minha tia.

Tranquila com a filha a seu lado, a mulher caminhava em direção à rua onde estacionou o carro. Depois de cumpridas as obrigações, voltaria para casa. Acostumada a ouvir coisas como “que bonitinha!”, “que gracinha!”, “a cara da mãe!”, a amiga da irmã de uma amiga da minha tia ficou horrorizada, porque é óbvio que sua filha já não é mais “fofinha”, mas nem por isso a mãe precisava aceitar que um adulto tratasse a adolescente como sua caça.

Impressiona-me, sobremaneira, a forma como os homens olham e como se dirigem às mulheres. Não sei de estatísticas, mas conheço a opinião de muitas: cantadas baratas ou olhadas para o traseiro da mulher quando ela passa servem para nada.

Terminadas as reflexões, vamos ao ofício.

Prometi escrever essa história para a amiga da irmã de uma amiga da minha tia, então aqui vai:

—  Minha sogra, sua filha é muito bonita!

Anabela preferia não ter escutado aquilo, olhou na direção do indivíduo que proferiu tais palavras e viu muitos dentes, eram tantos que ela sentiu ganas de eliminar alguns, mas, infelizmente, é contra violência física. A filha de Anabela, por sua vez, não soube para onde olhar. O rosto queimava e da boca, um riso escapava nervoso.

— Cara de pau. Sogra é a @#$%!

Esta crônica foi publicada em outubro, 2013 na Revista Rio Total.

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