Dada a natureza da profissão, uma cronista não pode viver reclusa. Seu objeto de trabalho é a narrativa sobre temas cotidianos e atuais, ou seja, a crônica. Observe que esse substantivo é formado pelo radical grego chrono, que significa “tempo”. A crônica é, portanto, um texto em prosa, cujo tema está relacionado à atualidade e ao dia a dia, em um relato cronológico. Dessa forma, não é possível criar um mundo fantástico, personagens mirabolantes, nem mesmo situações sobrenaturais quando o intuito é escrever uma crônica.

Sendo assim, o melhor lugar para encontrar a sua história é na vida — também encontramos vida em história; vida imita arte, arte imita vida, e por aí vai.

O fato é que, não se pode viver recolhida, isolada, apartada quando o objetivo é ser cronista. Portanto, saí em busca de uma história para contar esta semana. Socializei-me.

(Espero não revelar aqui alguma verdade que pretendia-se manter obscura. Já que este gênero textual surgiu como relato verídico de fatos históricos importantes para a sociedade. Passados os anos, a crônica assumiu a função de transmitir análise e comentário sobre fatos do cotidiano da sociedade, ou seja, acontecimentos sociais, políticos, culturais e de quaisquer outros âmbitos; a crônica pode abordar virtualmente tudo. Qualquer coisa. Até mesmo a própria crônica.)

E foi assim que descobri Marina, moça trabalhadora, de família boa que sempre começa o dia vivendo e escrevendo uma história, uma a cada dia. Penso eu.

Dia desses, Marina e esta cronista escrevemos uma história juntas. Aconteceu assim:

Em uma movimentada avenida da capital mineira, esta cronista esperava a condução que a levaria para o trabalho (pesquisa de campo em busca de uma história).

Na mesma movimentada avenida, da mesma capital onde esta cronista vive, Marina igualmente esperava pelo coletivo que a levaria para o trabalho. Mas a cronista somente saberia disso, depois de entrar no ônibus e observar o uniforme da mulher que a empurrou para entrar primeiro no “busão”.

9105, com destino ao centro.

— Com licença — disse a cronista ao observar que o único lugar vazio no ônibus era no lado direito do veículo, do lado esquerdo da mulher que a empurrou para entrar primeiro e sentar-se à janela.

———————

“Hum… Acho que ela está mal humorada. Melhor ficar calada.”

— O que você está lendo? — perguntou a cronista que não resiste e sempre questiona leitores que se sentam a seu lado.

———————

“É… Ela realmente não quer conversar. Mas eu não consigo… Preciso saber que livro é esse.”

A cronista começou a fazer um inusitado exercício de alongamento do pescoço. Tombou a cabeça para a esquerda, abaixou um pouco o tórax para frente e olhou a capa do livro.

Coberto com papel “craft”.

“Ah! Deve ser ‘Cinquenta tons de cinza’ ou coisa parecida e ela não quer que a gente descubra o que gosta de ler. Danadinha!”

Então, nossa cronista esticou a coluna. Jogou a cabeça um pouco para trás e olhou na direção da janela, quer dizer, das páginas expostas do livro de sua vizinha.

Nada. Não conseguiu ler. As letras eram pequenas.

— Com licença? Posso abrir a janela?

— Pode.

“Não olhou para mim. Nem abriu a janela. Esse livro deve ser bom mesmo. Abro eu mesma e aproveito para olhar de perto essa páginas secretas.”

— Obrigada — nossa cronista se esticou para abrir a janela enquanto Marina aproximou o livro do peito e esticou o corpo para trás e deu passagem a calorenta colega de assento.

“Deve ser ‘Kama Sutra’, só pode.”

— É bom ler no ônibus, né? Acho que vou pegar meu livro também. Estou lendo “Vastas emoções e pensamentos imperfeitos”, e você?

———————

“Deus do céu! Essa mulher está mal…”

E foi no momento exato em que a cronista pensou no nome divino que um sopro entrou pela janela que acabara de abrir e virou as páginas do livro misterioso e jogou os cabelos da colega de assento para o lado. Esta, sem saber se segurava as páginas, ou os cabelos, deixou tudo cair. Exceto os cabelos.

Nos pés desta cronista, esticaram-se livro, marcador de livro e bilhete de loteria.

“Minha chance de descobrir que livro é esse. Ah! Os céus ouviram o pedido desta mulher curiosa, ensandecida, obcecada por livros. Finalmente descobrirei o que essa mulher lê.”

Mais rápida que o vento, a mulher pegou o livro da mão desta cronista, levantou-se e disse sua segunda e última fala nesta história:

— Com licença — a passageira, leitora e misteriosa mulher levantou-se, acionou o sinal, aproximou-se da porta e sumiu.

Nossa cronista, que saiu em busca de uma história para seus leitores, voltou para casa com um marcador de livro onde Marina escreveu seu nome e um bilhete de loteria com os números 02 / 09 / 10 / 18 / 21 / 28.

E assim, muitas vezes, escritores criam suas crônicas: relatos do dia a dia que escrevem a partir de suas próprias socializações.

Mas também podem fingir tão bem que chega a ser socialização a história que inventam.

É. De fato, isso tudo poderia ter ocorrido, se e somente se, Marina tivesse vontade de conversar e escrever esta crônica comigo.

Não quis. Não leu. Não apostou na loteria.

Marina nunca existiu.

Ou será que a cronista tentou fingir ser mentira a verdade que relatou.

Como saber?

Crônica publicada em novembro, 2013 — Revista Rio Total

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