Quem já foi meu aluno me ouviu dizer, inúmeras vezes, que ler não é apenas saber decodificar a língua; sabe que, para mim, ler é muito mais que saber qual som uma letra faz ao lado de outra. Quem já foi meu aluno passou pela experiência de fazer distintas leituras, de debater a leitura do outro, de ler até mesmo o que alguns não entendem por texto. Dessa vez, eu estive no lugar dos meus alunos.

Em um núcleo de pesquisa em dramaturgia, escutei o palestrante dizer, com as mesmas palavras que eu há tempos utilizo, que ler é um ato além do texto escrito. Foi impossível não evocar Paulo Freire: “a leitura do mundo precede sempre a leitura da palavra e a leitura desta implica a continuidade da leitura daquele”. A verdade é que começamos a ler no momento em que entramos em contato com o mundo. Percebemos o calor, enxergamos a luz, degustamos sabores, notamos aromas, identificamos os sons. Somos capazes de ler não apenas com os olhos, mas também com cada parte, tangível ou não, do corpo. Lemos imagens, sons, cheiros, sabores e sensações.

Então uma grande coincidência me ocorreu em mais um de meus dias acelerados. Eu saía um tanto quanto apressada quando, ao atingir a rua, meu carro apontou o carteiro. Ele acenava a minha frente e impedia minha passagem. De dentro do veículo fechado não pude ouvir, mas vi em suas mãos um pacote, percebi em seu olhar a urgência. Abri a janela.

— Chegou para você, assina aqui — parte de seu corpo entrou no carro para me entregar um pacote e a folha de protocolos de recebimento.

Depois de uma rápida conversa, carteiro para um lado, carro para outro, segui meu rumo. A meu lado, uma adolescente curiosa.

— Pode abrir? — minha filha perguntou já com o dedo preparado para desvendar aquele território ainda misterioso; ela não havia lido o que podia ser.

— O que você acha que é?

— Não sei…

— Lê.

— É para você.

— Quem enviou?

— Seu primo — ela foi rápida em descobrir essas pistas.

— O que você acha que é?

— Não sei.

— Tente ler mais.

— Um livro? — arriscou depois de apertar por aqui e por ali o pacote, mas, sobretudo, depois que pensou duas vezes sobre o que o remetente poderia ter enviado. — É claro! Só pode ser um livro.

— Então abra e descubra — dei o sinal que precisava para matar sua curiosidade de leitora; ela queria saber se estava certa.

Estava.

“A Arte de Ler”, o livro de Mortimer J. Adler e Charles Van Doren, habitou nosso carro. Rimos. Ficamos repentinamente felizes. Ela por ter desvendado o mistério como uma excelente detetive e eu porque meu primo não poderia ter acertado mais no presente.

— O que é arte de ler, mãe?

— Boa pergunta. Está vendo aquela placa? — estávamos em um cruzamento — Sabe o que quer dizer?

— Claro! É proibido virar para a direita.

— Perfeito. Agora leia aquela ali — apontei para o círculo branco com a letra E cortada por um X.

— Proibido estacionar. Tá bom. E o que isso tem de arte?

— Se a placa diz que é proibido estacionar, por que tem carro estacionado ali?

— A pessoa não respeita.

— Claro. Mas, principalmente, filha, a pessoa não lê. Veja bem, tudo o que vemos, sentimos, ouvimos, enfim, tudo o que nossos cinco sentidos captam, pode ser lido. Ou seja…

— Interpretação.

— É por aí. Se há numa calçada um poste que carrega em si uma placa cujo sinal indica ser proibido estacionar, o que devemos fazer? Interpretar, ora. Aquela placa não é uma simples proibição. Observe a rua. É estreita. Se um carro estaciona ali, o que trafega terá, necessariamente, que passar pela contra-mão. Se houver um carro na direção contrária, ambos enfrentarão um pequeno problema de espaço. Ou seja, por trás do que está escrito, há muita informação.

— E por que as pessoas não respeitam?

— Há vários motivos, mas gosto de apontar a falta de hábito de leitura. Como toda arte, ler é um privilégio de quem criou o hábito. É como dizem: “só se aprende fazendo”. Infelizmente, essas pessoas têm preguiça de ler, não praticam, não vão desenvolver esse hábito.

Em casa, mais tarde, folheei “A Arte de Ler” e não resisti: devorei uma parte do livro. E conclui que tanto eu, como o palestrante do núcleo de pesquisa não estamos sozinhos quando pregamos o hábito de leitura como algo além das letras e como arte.

E para aqueles que não pensaram nisso dessa forma, aproprio as palavras de Adler e Doren e deixo aqui a sugestão de quatro perguntas quando se deparar com algo passível de ler, ou seja, quando estiver em frente de qualquer coisa. Responda a elas e pratique, desenvolva esse hábito, seja um artista.

  1. De que isso se trata?
  2. Quais são os detalhes por trás disso? Descubra as ideias que acompanham a mensagem principal.
  3. Isso é verdadeiro? Conheça a opinião do autor, mas forme seu próprio juízo.
  4. Qual é o resultado disso? Se alguma informação lhe foi transmitida, pergunte-se o significado dela. Entenda porquê alguém achou aquilo importante. Conclua se, de fato, é relevante.

E então, qual é sua leitura?

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