O veneno da aranha vermelha

IMG_0064A comunidade queria se livrar da aranha vermelha. Em qualquer lugar — na praia, em casa, no restaurante e provavelmente até no motel com o amante —, o assunto era o bravo veneno daquele aracnídeo.

— Cuidado com a Vermelita Venenosa!

— Me disseram que uma dessas pode transformar nossa comunidade em uma selva. Aí todo mundo vai morrer.

— Conheço algumas pessoas que foram mortas pela VV.

E assim, as mais sinistras histórias eram criadas. Eu nunca tinha visto uma dessas, ninguém sabia explicar direito os efeitos do veneno e as estatísticas de morte por picada da aranha vermelha eram imprecisas.

Um dia, chegou minha vez de estar frente a frente com a “Vermelita”.

As pessoas insistiam, gritavam, pareciam nem respirar enquanto repetiam aquela ladainha de morte.

— Mas gente! Por que eu tenho que matar a aranha? — perguntei inconformada. E a única reposta que sabiam me dar consistia na cor do bicho e no fato de ele ter veneno.

Quanto mais eu me aproximava, mais algumas pessoas gritavam comigo. Outras saíam correndo, depois de apontar o dedo em minha direção para falar que eu não poderia contar com elas se fosse picada.

Cheguei ainda mais perto, por entender que de longe, muita coisa é inventada.

Quando vi uma carapaça vermelha com bolinhas pretas, entendi que o veneno da aranha vermelha não era uma ameaça real.

— É uma joaninha! — afirmei.

Mas ela bateu as asas e ninguém a reconheceu. Repeti meu anúncio, no mesmo instante em que alguém deu um golpe e derrubou a joaninha no chão, de pernas para cima.

Protegi o inseto do grupo voraz que se aproximou gritando palavras de guerra. Para os primeiros que chegaram anunciei que era uma joaninha, segurando em uma das pernas que debatiam para o alto. A notícia se espalhou. Segurei firme e com delicadeza — para ser forte e decidido não é necessário ser bruto — segurei,  para levantar o inseto. Fiquei de pé, olhei para frente. Levei a joaninha para um espaço aberto. Ela voou, se distanciou um pouco, voltou, voou para longe, ao som de aplausos entusiasmados.

— Eu sempre soube que não era uma aranha vermelha — afirmou um homem, batendo no meu ombro.

— E eu sempre soube que o pior veneno está em quem vocifera críticas e julgamentos fundamentados em fantasias, e não aceita se aproximar para conhecer a realidade de outras existências.

***

Ana Luiza Libânio é feminista, escritora, roteirista e tradutora. Graduada em Letras pela UFMG, mestre em Literatura e especialista em Estudos de Mulheres e de Gênero pela Ohio University, com Formação em Direitos Humanos pela UEMG. É idealizadora do projeto de educação para o feminismo O Futuro é Feminista. Publicou o ensaio The Autonomous Sex (Lambert Academic Publishing, 2010), o romance A história de Carmen Rodrigues (Ser Mais, 2014) e a coletânea de contos 17 (Quintal Edições, 2018).

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