Carta aberta a minha família

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Rio de Janeiro, 19 de setembro de 2018.

Querida família,

Gostaria de sentar à mesa da vovó e olhar nos olhos de cada um e cada uma de vocês para dizer que sempre tive amor por nossa família. Cada momento que passamos juntos, cada brincadeira, cada situação tão peculiar nossa estão bem guardados no devido lugar: meu coração.

No entanto, também queria dizer:
Quando alguns de vocês apoiam o candidato Jair Bolsonaro e seu candidato a vice, General Mourão, para mim é o mesmo que dizer que não sou bem-vinda à mesa da vovó. É o mesmo que dizer que naqueles deliciosos encontros de Natal, ou nos domingos que passamos juntos, se eles se repetirem, não sou bem-vinda. Para mim, ver alguns de vocês apoiando a falta de lógica, a ignorância e a violência é como ouvir vocês me dizendo “Ana, não nos relacionamos mais”. E se vocês pensam que sou exagerada, explico:

Não há lógica no discurso que promete acabar com a violência por meio da violência. Para começar que, se alguém comete uma violência, esta não acaba com a outra, porque é também violência. E outras virão. Violência é violência, não importa quem fez a ação.

Se existem bandidos, se amanhã um bandido me assaltar, porte de arma não me salvará. Aliás, porte de arma pode um dia me matar — imagina se uma pessoa violenta, como algumas que já me abordaram, estiver armada… A causa da violência urbana é resultado da falta de investimento na educação e da falta de empregos. Seguindo a lógica: quando não há educação pública, quem sofre mais são os pobres, em sua maioria, pessoas negras — o que não é o caso de nenhum de nós da família, porque fomos “sorteados” com condições muito privilegiadas. Violência, como “subir no morro e metralhar todo mundo” (palavras do candidato) não soluciona esse problema.

Por falar em negros, eis o momento de falar sobre o que chamamos Ação Afirmativa: trata-se de uma ação social que tem tempo para começar e acabar, acompanhada de investimentos na área em questão, e cuja finalidade é afirmar a necessidade que o público alvo da ação tem de alcançar o objetivo promovido. É o caso das cotas que nós, da nossa família, nunca precisamos; inclusive, algumas pessoas abriram mão do privilégio de estudar e não concluíram o ensino superior — todos nós chegamos lá, sem qualquer dificuldade, além daquelas estritamente pessoais.

Também não há lógica no discurso da “Escola sem Partido”, afinal, o que desenvolve o ser humano em seu potencial crítico é o debate. Isso a gente aprende com a família e na escola — mas nem todo mundo tem uma mesa na casa da avó, ou tios e tias, pai e mãe com formação e experiência tão vasta que possam ensinar sobre a diversidade do mundo; escolas abertas ao debate são necessárias, mais que isso, são um direito. Se um professor comete falha didática, não podemos acusar todos os outros professores de serem ruins. Portanto, não é certo se basear em vídeos com um ou outro professor equivocado, conduzindo atividades pouco pedagógicas, para criticar os Estudos de Gênero, a educação sexual e outras atividades que promovem debates sobre sexualidade — o governo precisa proporcionar treinamento para o corpo docente das escolas.

Por falar nisso, discutir gênero não é sexualizar as crianças antes da hora, e não é ideologia, mas sim, saber conversar com elas quando elas procurarem respostas para os questionamentos naturais — quem nunca teve dúvidas sobre o próprio corpo? Em nossa família, todos nós tivemos, e temos, uma mesa ao redor da qual sentar e conversar. Portanto, esse é um exemplo da ignorância, que também pôde ser ouvida no discurso do general vice. Ele afirmou que uma casa onde só tem avó e mãe é “fábrica de desajustados”. Se isso for verdade, se vocês concordam com o pensamento dessas pessoas, terá que concordar que nossa família é fábrica de desajustados. Inclusive, minha filha deve ser uma delas.

Família é uma reunião de pessoas que se amam e se respeitam, não é o que os políticos do partido PSL afirmam ser. Ao concordarem com eles, automaticamente vocês me excluem da mesa da vovó. Minha família não é bem-vinda e desde já peço desculpas por ter comparecido às festas, afinal, sou homossexual, casada com uma mulher e tenho uma filha. Sou professora, educadora, palestrante e escritora, será que estou corrompendo os jovens da nossa nação? Se vocês apoiam o deputado Jair Bolsonaro e o general Mourão como candidatos a comandar nosso país, para mim estão dizendo que eu terei que me afastar de vocês, de seus filhos, se já os tiverem, ou dos filhos que terão.

Jamais, em tempo algum, corrompi, maltratei qualquer ser humano nesta terra, no entanto, sou tudo a que os candidatos do PSL se opõem, e temo pelo meu futuro, temo continuar a ser maltratada como já fui diversas vezes na rua ou em outros espaços públicos.

Não estou replicando discurso de internet. O que falo sobre os candidatos ouvi ou li das fontes. O que falo sobre gênero e outras questões, estudei. Se quiserem aprender mais sobre Estudos de Gênero e Direitos Humanos, posso indicar bibliografia séria, confiável. E sobre as eleições, lembre-se: são treze candidatos a presidente, não apenas dois. Vocês têm outras opções.

Por fim, eu digo: nunca excluí perfis nas redes sociais nem deixei de conversar com alguém por divergência política. Continuarei com esse comportamento. No entanto, nossa divergência vai além da política e ameaça minha integridade e a de minha casa. Você defende meu carrasco. Eu preciso me defender.

Um beijo, amor e compaixão,
Aninha

#elenão #amor #nãoviolência ♥️

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