Orgulho

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“Todos – todos nós – fazemos parte da família de Deus. Todos devemos ser autorizados a amar uns aos outros com honra.” — Desmond Tutu

Já me chamaram de sapatão. Algumas vezes. No meio da rua, já ouvi gritos que vinham de um carro com homens que colocaram o corpo para fora em um esforço para me xingar. E já recebi mensagem de apoio, apoio a minha aniquilação, por eu ser o demônio. Já fui perseguida no emprego, porque não correspondi às investidas da chefe, ou melhor, ao assédio dela — o assédio sexual é primo-irmão do assédio moral. Além disso, já me empurraram, já fui menosprezada, já me recusaram a possibilidade de ser candidata a uma vaga de emprego, algumas pessoas não falam mais comigo, já vi ginecologistas constrangidas com minha sexualidade. E não posso me esquecer, claro, do abuso que sofri.

Inúmeras vezes, percebi o desconforto de algumas pessoas e vivi a diferença de tratamento por ser mulher, por ser homossexual, por ser mulher-homossexual — no convívio social, em relações de trabalho e na família.

Diariamente, se saio de casa, passo por alguma situação em que é melhor não ser quem eu sou.

Mas eu sou! Sou Ana Luiza Libânio, mulher, mãe, filha, irmã, feminista, queer, cunhada, tia, esposa, escritora, tradutora, prima, vizinha, amiga… Minha vida tem valor. E isso aqui não é drama — não é mimimi — é luta. Porque eu não sou a única pessoa que sofre algum tipo de preconceito.

No Brasil, foram registradas, até 15 de maio deste ano, 153 mortes de pessoas LGBT+: 111 foram assassinadas e 42 cometeram suicídio. A cada 2 segundos, uma mulher sofre violência física ou verbal, neste país. A expectativa de vida de uma pessoa trans é de 30 a 35 anos, apenas. A taxa de homicídio de negros é mais que o dobro de pessoas não negras. Mais da metade dos jovens brasileiros que morrem entre 15 e 19 anos são assassinados. Em 68% dos casos de estupro registrados no Brasil, a vítima era menor de 18 anos, entre as quais, 30% eram menor de 13 anos — o agressor, em geral, é da família. De cada 100 parlamentares, apenas 23 são mulheres.

Esses são alguns dos números de uma sociedade violenta, da nossa sociedade brasileira.

É urgente dar visibilidade aos casos de violência, ampliar redes de apoio, dar manutenção, aprimorar e aprovar leis — a PLC 122, que criminaliza a homofobia, precisa ser desarquivada. Precisamos refletir sobre comportamentos preconceituosos e discriminatórios e dialogar. E o mais fundamental: precisamos educar crianças, jovens e adultos para criar uma consciência de comunidade, lugar em que pessoas protegem pessoas, pelo simples fato de serem pessoas.

28 de junho, Dia do Orgulho LGBT+
❤️✊🏾

 

Ana Luiza Libânio é feminista visionária, escritora, roteirista e tradutora. Escreveu “A história de Carmen Rodrigues” e “17”.

Este texto foi publicado no Medium .

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