O tempo da escrita

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O tempo da escrita é o agora. Em ritmo lento faz-se história; quando é urgente, revolta.

A escrita é vivência em seu próprio tempo. Ela é íntima, forma-se na mente, constrói, desconstrói, reconstrói. É devir. Quando transforma o status quo, é revolução.

A escrita é vigente; seu ritmo é respiração. No pretérito, é registro ou ficção. O ato é político: escrevemos o mundo em que vivemos e escolhemos as memórias que teremos; podemos ser contra a opacificação da realidade social e, pela escrita, sair de um estado de pura adaptação, acomodação para ser sujeito da história, ou vegetar em escritas estáticas — duvidosos caminhos pavimentados por certezas criadas para (r)estabelecer lacunas e confundir a memória. Todos somos escritores, disse o escritor. Mas nem todos são autores, disse o outro.

Escrever é guardar vistas ou deslocar um ponto, para criar novos olhares — viver e escrever, verbos comuns de todos os gêneros, idades e saberes: todo texto é possível; toda vida é vivível. Planejados, esperados, nada do que pensávamos; muito, pouco ou muito pouco. A escrita é performance.

— Você consegue passar um dia sem escrever? — perguntou o pesquisador.
— Você consegue passar um dia sem respirar? — ela respondeu.

E assim se escreve: vivendo. Agora. Nós somos, agora.

No livro, a guru listou dicas para um bom viver:

  1. Fale menos, aja mais — não me conte, mostre do que é capaz.
  2. Tudo que o autor faz no texto é para a história; nada deve sobrar.
  3. Os elementos alinhavam a história — coerentemente — , criando identificação e simpatia. Ou não. A escolha é sua.
  4. Todo texto tem ritmo — ação e reação.
  5. Use os cinco (seis) sentidos.
  6. Menos adjetivos, menos advérbios. Mais ação.
  7. Ninguém é igual no início e no final da história.

O tempo da escrita é também o tempo da leitura, dois lados de uma mesma moeda. Assim como escrevo, leio o mundo.

Mas o registro são outros quinhentos.

Em tempo: “Na teoria da relatividade, não existe tempo absoluto único; em vez disso, cada indivíduo tem sua própria medida de tempo, que depende de onde ele se encontra e de como está se movendo.” — Stephen Hawking

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Ana Luiza Libânio é feminista visionária, escritora, roteirista e tradutora. Escreveu “A história de Carmen Rodrigues” e “17”. Este texto foi publicado em Mulheres que escrevem.

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