Nossa gente não está na TV

“Não tente viver no domingo o que é para ser vivido na segunda-feira.” No município mineiro de Novo Cruzeiro, Dina é coordenadora da Jornada Mineira de Alfabetização “Sim, eu posso” — método cubano de alfabetização “Yo, si puedo!” utilizado pelo MST para superar o alto índice de analfabetismo no Brasil. Lá no nordeste de Minas, ela vive no acampamento Nova Vida, onde a experiência de luta a ensinou: com paciência e diálogo é possível conquistar os direitos que, apesar de básicos e previstos nas leis, não são garantidos a todos os brasileiros.

Assim é a vida das companheiras e dos companheiros que há quinze anos começaram a construir sonhos debaixo de lonas pretas, alternando entre o frio lancinante e o calor “baforento” em terras improdutivas que, debaixo de seus pés e com o trabalho de suas mãos, tornaram-se solo que alimenta dezenas de famílias e abastece o município com uma produção limpa e sustentável. Essas pessoas, que diariamente sofrem preconceito, lutam por uma vida digna, querem se educar, ainda que o governo negue esse direito, quando não investe nas escolas nem oferece condições para que os cidadãos se dediquem à sala de aula.

“Ô moça, numa sala cheia de filhinho de papai, quem ia dar atenção para um cara do MST?” Essa não é uma situação fictícia. Um homem de quarenta e três anos é obrigado a ter habilitação para transitar nas estradas de terra de seu município, mas é também forçado a enfrentar a discriminação na sala de aula, depois de superar o desafio financeiro que quase o impede de chegar lá.

“Ah! Eu tenho um sonho: viver uma vida digna, fazer faculdade e ser psicóloga. Ou quem sabe ser polícia, pra ser diferente, sem violência e com mais diálogo e respeito.” As mulheres têm ambição. Elas sabem que podem mais do que a sociedade permite a elas.

A utopia de um mundo sem violência obstétrica, feminicídio, genocídio dos negros e o assustador abismo que separa classes sociais, um mundo em que as diferentes realidades dos cidadãos brasileiros existirão em narrativas de uma mesma história sobre protagonismo, dignidade e direitos é alimento diário daquelas pessoas. E das pessoas que compõem mesas de debate, que enchem o auditório para dialogar, que frequentam teatros, que lutam para serem ouvidas e que batalham todos os dias na roça, nas salas de aula, nos palcos, nos ônibus, nas ruas, nas favelas.

Esse é o povo brasileiro.

Povo que gosta de música, de literatura, de teatro e cinema. Povo das artes, da matemática, da administração. Povo que quer conhecer e ser conhecido, quer ser visto e lembrado.

O povo brasileiro não é só o da cerveja gourmet, ou o que toma vinho francês, é também o povo da cachaça de nome estranho; não é só o povo que dirige carro importado, é também a multidão que se aperta nos trens ou os pés descalços na poeira; a gente brasileira não está apenas sentada atrás de mesas polidas olhando computadores, números, e falsas vidas hollywoodianas, ela está deitada na calçada assistindo — sem ser assistida — a vivências distantes.

Estamos nas rodas de conversa, soprando fumaça de tabaco enrolado em folha de papel ou na palha do milho que nós mesmos colhemos, comendo carne frita servida com chuchu e abóbora cozidos, que nós mesmos plantamos. Dançamos forró, descemos até o chão e cantamos óperas. Usamos o banheiro de cócoras, lavamos roupas e o corpo no rio, carregamos água para o barraco, para a horta, para quem nos visita lavar as mãos. Somos a mulher e o homem cearenses que viajam dois dias de ônibus para ver a família. Somos crianças correndo no campo, pedalando, caminhando quilômetros para chegar à escola mais próxima.

Somos movimentos organizados, somos greves organizadas, somos grupos unidos e vivemos constantemente de olhos abertos, porque na escuridão que nos cerca é necessário estarmos sempre atentos.

Mas, infelizmente, somos também o opressor. Somos o homem branco e rico, que sentado em seu trono defeca normas e cria leis que não atendem a uma maioria insistentemente apontada como minoria. Não reconhecemos o corpo preto, desidratado pelo sol, o corpo que fica na área de serviço à disposição do nosso capricho. Ignoramos o corpo trans, o corpo que plantou nosso alimento ou construiu nosso teto seguro quando ele mesmo não tinha onde morar. Ignoramos esses corpos que são vidas. Somos gente que aponta o dedo para julgar, sem ser capaz de analisar a própria solidão. Agredimos quem ama e expressa amor, humilhamos quem se distancia de padrões e não olhamos nos olhos de nossos concidadãos. Somos o governo que não investe na educação, na saúde, na alimentação do estudante, em conhecimento, no bem-estar do pobre. Somos abusadores, assediadores, estupradores e somos campeões em violência.

Somos MST, MTST, CEBs e tantas outras siglas que lutam para ler e (re)escrever sua história. Somos universidades federais, escolas e projetos que batalham para sobreviver à negligência de quem exerce um poder hipócrita, egoísta, preconceituoso e segregacionista.

Somos seres humanos vivendo em um gigantesco lugar onde é urgente derrubar muros e construir pontes que nos permitam resgatar fraternidade, sororidade e humanidade, aproximando pessoas, porque se um indivíduo não é livre, a sociedade inteira não é. Em uma comunidade, por maior que ela seja, não existe “o problema é seu”. Como João Cabral de Melo Neto nos ensinou: “um galo sozinho não tece a manhã, ele precisará sempre de outros galos.”

Nossa luta precisa ser pela construção de uma grande comunidade em que todas as pessoas tenham igual acesso à educação e às tecnologias, para que ninguém precise andar armado, para que todos tenham mesa e que sobre a mesa possam colocar comida. Para que as noites sejam protegidas por um teto. Precisamos de uma comunidade de pessoas diferentes com oportunidades iguais.

O povo brasileiro, esse pessoal bonito, de sorriso fácil e cheio de casos para contar, não é o povo da TV. Então, precisamos levantar do sofá, sair de casa com o punho erguido e juntos construir uma história de liberdade.

Amor e luta!

Este texto é dedicado a Dina, às companheiras e aos companheiros do MST; é dedicado também a Caroline Andrade, Valéria Cristina da Costa, Vanessa Juliana, Marcos Fábio de Faria, Socorro Lira, André Luiz Dias e à equipe que faz o FESTTO acontecer.

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Visita ao acampamento Nova Vida, organizado pelo MST, com roda de conversa sobre histórias de resistência.

 

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Mesa de debate “Gênero e diversidade na literatura, na música e no teatro: mulheres e negritudes”, UFVJM.

 

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Ana Luiza Libânio é feminista visionária, escritora, roteirista e tradutora. Este texto é uma reflexão sobre as atividades realizadas como parte da programação do FESTTO 2018 e as ações em parceria com a UFVJM.

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