Luto é engajamento

No país que mais mata defensores de Direitos Humanos, nas Américas, acordo todos os dias e me alimento de esperança. Sou otimista. E nos momentos em que questiono o valor do meu otimismo, lembro-me do que Frei Betto sempre diz: “Guardemos o pessimismo para dias melhores”.

Repito isso como um mantra, porque sei que o Estado truculento, controlador e autoritário se esforça para produzir cidadãos pessimistas, porque, escreveu Henfil, “pessimista não dorme, não faz amor, não faz partidos, não incomoda, não reclama, não briga”. Ou seja, em momentos de crise, não podemos ser pessimistas.

O otimismo nos permite amar e, como escreveu bell hooks “todos os grandes movimentos sociais por justiça enfatizaram veementemente uma ética do amor”. Mesmo nos piores momentos, quando a esperança está por um fio, o amor nos dá força para seguir. Foi o que John Lennon quis dizer com “all we need is love”, Rose Marie Muraro com a afirmação de que comunicação é amor, e Deus com seu segundo mandamento, que diz para amar o próximo “como a ti mesmo”.

Porque é esse amor que permite sair de si e compreender, respeitar e assumir o outro.

Amor não é paixão nem romantismo, é diálogo — escuta e fala. Amor está na compaixão. E são esses os ingredientes essenciais para nossa luta, para sairmos dessa encruzilhada, esse encontro de mundos — deus e diabo. Hoje somos Faustos. Precisamos escolher entre fazer o pacto ou usar de nossa própria alquimia, para construir relações humanas saudáveis. Nossa encruzilhada nos coloca entre duas possíveis sociedades: uma de seres humanos, outra de fantoches de um sistema desumano.

Luto? Todos os dias. Porque isso é verbo — engajamento, ação. Não há ação sem liberdade, mas, sobretudo, ação só existe quando cada consciência cresce a partir da consciência do coletivo e das questões vividas em seu contexto — lugar e tempo. Engajar-se é aproximar Eu do Outro e se preocupar com o Nós. Porque nós somos a construção de Nós, ou como Marielle Franco sempre dizia, “eu sou porque nós somos”, uma referência ao termo Zulu “ubuntu”, usado também pelos líderes Desmond Tutu e Nelson Mandela.

Luto precisa ser pluralizado para se tornar “lutamos”, porque se o que vivemos foi historicamente construído, a mudança que queremos também pode ser.

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Cidadãos em protesto na Câmara dos Vereadores, onde Marielle Franco e Anderson Pedro Gomes foram velados, depois de serem executados na noite de 14 de março, no Rio de Janeiro. Fotografia de Sergio Moraes (Reuters).

Não podemos nos omitir, escondidos no pessimismo. Sigamos otimistas! Engajados nessa luta por todos nossos direitos — aqueles que temos pelo simples fato de sermos humanos —, mas, sobretudo, pelo direito mais essencial: o direito à vida.

 

 

 

 

Na vida não se guarda culpa da transgressão, mas sim da omissão — Frei Betto, O que a vida me ensinou. São Paulo: Saraiva, 2013.

 

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Um sério clichê

Ana Luiza Libânio (Belo Horizonte/MG, 1974) é mestre em Literatura e especialista em Estudos de Gênero pela Ohio University. Publicou o ensaio Autonomous Sex (LAP Lambert Academic Publishing, 2010), o romance A história de Carmen Rodrigues (Ser Mais, 2014) e a coletânea de contos 17 (Quintal Edições, 2018).

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