Tudo é passageiro…

…exceto o motorista.

No ônibus, a caminho de casa, depois de dois intensos dias de comemorações natalinas, Ana se acomoda em sua poltrona 24 e pede ao universo que lhe proporcione uma tranquila, suave e segura viagem.

Cinco minutos depois, sobe a bordo a pessoa que seria sua companhia pelas próximas 7 horas. A mulher, carinhosamente aqui apelidada Cia., se acomodou, pediu ajuda para encontrar a tomada USB, comentou as recomendações do Sr. Motô, pediu proteção a Deus e se recolheu ao isolamento do celular com fone de ouvido. Ana, por sua vez, sacou um livro da bolsa — “Enquanto os dentes” de Carlos Eduardo Pereira — e não pôde deixar de notar o forte perfume de Cia.

Mais uns dez minutos seguiram e Cia., sentada à janela, começou a esticar o cotovelo esquerdo na direção de Ana que, gentilmente, solicitou que o braço fosse mantido no espaço designado à dona dele. Cia. disse “ó, sim!” E mais alguns minutos depois deu uma cotovelada em Ana.

“Desculpa!”
“Está desculpada.”

Depois de duas cotoveladas, Cia. desembrulhou uma “cheirosa” goma de mascar sabor tutti-frutti (ou coisa semelhante) e começou, lógico, a mastigá-la. De boca aberta.

Os aromas se misturaram. “Enquanto os dentes” se esforçava para distrair Ana daquele som de goma entre os dentes de Cia., já não dava para saber o que era pior: o cheiro de chicletes misturado ao de perfume, o som de mastigação alheia ou as insistentes cotoveladas de uma mulher que não sabe se manter em seu espaço.

Quando tudo parecia suficientemente tranquilo, suave e seguro, conforme mentalizado, Cia. decidiu fazer bolas.

Alguns estouros depois, a adorável companheira de viagem resolveu abrir a mochila. Enorme, equilibrada sobre suas pernas, caindo para a esquerda a cada curva do busão — se ao menos Ana estivesse indo para Brasília… Eis que saiu uma grande garrafa de refri, embrulhada em duas sacolas de plástico. Em seguida, mais duas sacolas foram pescadas e a agitada mão de Cia. catava salgadinhos, também aromáticos, e jogava na boca, mastigando com um peculiar crock, crock — sem se livrar da goma de mascar.

Em Juiz de Fora, local desse desabafo em 3ª pessoa, Ana perdeu as contas de quantas reposições de chicletes, goles de refri e cotoveladas precisou enfrentar. E foi aí que veio a “cereja do bolo”: Cia. não só cantarolava seus hinos de igreja como, na parada, retocou o perfume e, de volta ao ônibus, desembrulhou uma bela maça.

Seguiram viagem — tranquila, suave e segura — com um inesquecível aroma de embrulhar o estômago acompanhado da 11ª sinfonia Crocks, regida por Cotovelus Nervosus.

Pelo menos tudo isso é passageiro.

Oṃ maṇi padme hūṃ

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