Paleta

Não acredito mais em “isto ou aquilo”. Vejo tons em tudo que existe, em tudo o que é. A própria vida tem suas faces — tangentes e congruentes —, e o tempo parece-me o grande, magnânimo, simples detalhe da existência, ora longa ora fugaz, que nenhum mecanismo é capaz de marcar — a não ser na ilusão da concretude — que comprova a fluidez de tudo.

Nem mesmo seu mais concreto, lógico, indubitável estado será capaz de se fechar em uma definição — quando você tentar fazer isso.

Há alguns anos, sofro e sou feliz.

Tudo começou numa terça-feira, dia 2 de julho de 1974. Não me lembro mais a hora… Acho que foi por volta de meio-dia. Um pouco mais de vinte e quatro horas depois, o Brasil foi derrotado pela Holanda e eliminado da copa, sob o comando de Zagallo, com Jairzinho e Rivelino em campo  — meu pai ficou dividido e minha mãe precisava lidar com uma dor maior.

Dói dar à luz, mas também dói nascer. Na verdade não me lembro disso, mas a julgar pela mudança brusca de ambiente e pelo espaço apertado pelo qual temos que passar, arrisco dizer: só pode doer. Mas dói por mais tempo, viver.

A mente humana, apelidada de macaco por praticantes de meditação, não fica parada; ela pula de galho em galho, arranha-se, cai, salta novamente numa eterna busca, sabe-se lá de quê. Porque, ao contrário do que muitos pensam, o normal é essa “malandra” mudar de ideia. A fluidez do ser é responsável pela parcela de felicidade que torna viver essa coisa que muitos podem pensar ser um ato de masoquismo.

Há algum tempo vejo que tudo pode ser muito mais do que apenas isto ou aquilo. Inclusive eu mesma. Nunca tive uma profissão só. Quando era professora, no início da carreira, era também estudante. Depois fui executiva de contas e professora; professora e tradutora; tradutora e estudante; tradutora e escritora. Minha sexualidade também não foi gravada em pedra. Minha primeira lembrança de desejo foi por uma mulher, depois vieram os “namoradinhos”, depois veio uma garota por quem me apaixonei, depois um cara, outra garota, homem, mulher. Já gostei de carne, depois não gostei mais, voltei a gostar, assumi não gostar. Tive medo de gatos. Não gostava de praia. Achava andar de chinelo na rua o fim da picada.

Hoje sou diferente.

Sou uma pessoa feliz e sorridente, mas tenho depressão, decorrência da fibromialgia (e provavelmente de outras coisas), consequência da síndrome do pânico (e provavelmente de outras coisas), resultado de uma série de coisas (e provavelmente de outras coisas) — tangentes e congruentes. Sofro de dores no corpo inteiro, e até onde eu nem imaginava que existia corpo, dói.

Eu achava que o ser humano não deveria se entupir de remédios. Achava. Porque, como disse, a vida dói e é prazeirosa, é triste e é feliz, é rápida e é devagar. E não acho que tenhamos que escolher. Não há o que escolher. Nossa experiência é de vida e morte. Devemos encarar os dois. Sentir é existir. E às vezes, a anestesia é o que faz a gente sentir.

Em 25 de dezembro de 2017, outro dia mesmo, comecei a encarar, no fim do dia, um comprimido seguido de uma bela noite de sono — esta coisa de que já não me lembrava — e se essa prática der certo, talvez eu volte a gostar de Natal.

Hoje estou sentindo, sentindo muito. Porque é necessário dormir para acordar.

Assim como doeu passar por aquele espaço apertado antes de chorar pela primeira vez, cada passo até chegar aqui doeu e foi prazeiroso. Se não tivesse doído, eu não estaria aqui. Se não tivesse sido prazeiroso, também não.

Eu poderia dizer que isso é uma mensagem de Feliz Ano Novo, mas também não acredito nisso. Afinal, se ele é novo, é também velho, e se é feliz é também triste.

Desejo vida. E que ela valha a pena, e não, e talvez, e nem pensar, e bom demais, e… Que ela seja vida, e que seja sua, para fazer dela o que quiser.

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